A CHAVE DOS GRANDES MISTÉRIOS - parte 4


ARTIGO III
Solução do terceiro problema
Razão dos Mistérios
Sendo a fé a aspiração ao desconhecido, o objeto da fé é absoluta e necessariamente o mistério.
Para formular suas aspirações, a fé é forçada a emprestar do conhecido aspirações e imagens.
Mas ela especializa o emprego dessas formas ao reuni-las de uma maneira impossível na ordem conhecida.
Tal é a profunda razão do aparente absurdo do simbolismo.
Demos um exemplo:
Se a fé dizia que Deus é impessoal, poder-se-ia concluir daí que Deus é apenas uma palavra ou, no máximo,
uma coisa.
Se ela dizia que Deus é uma pessoa, o infinito inteligente seria representado sob a forma necessariamente
limitada de um indivíduo.
Ela diz Deus é um em três pessoas para exprimir que se concebe em Deus a unidade e o número.
A fórmula do mistério exclui necessariamente a própria inteligência dessa fórmula, na medida em que
empresta do Verbo coisas conhecidas, pois se fosse compreendida exprimiria o conhecido e não o
desconhecido.
Pertenceria, então, à ciência e não mais à religião, isto é, à fé.
O objeto da fé é um problema de matemática onde o x escapa aos procedimentos de nossa álgebra.
As matemáticas absolutas provam somente a necessidade e, por conseguinte, a existência desse conhecido
representado pelo x intraduzível.
Ora, por mais que a ciência avance em seu progresso indefinido, mas sempre relativamente finito, nunca
encontrará na língua do finito a expressão completa do infinito. O mistério é, portanto, eterno.
Fazer entrar na lógica do conhecido os termos de uma profissão de fé é fazê-los sair da fé que tem por bases
positivas o ilogismo, isto é, a impossibilidade de explicar logicamente o desconhecido.
Para os israelitas, Deus está separado da humanidade, não vive nas criaturas, é um egoísmo infinito.
Para os muçulmanos, Deus é uma palavra diante da qual nos prosternamos sobre a fé de Maomé.
Para os cristãos, Deus revelou-se na humanidade, prova-se pela caridade, reina pela ordem que constitui a
hierarquia.
A hierarquia é guardiã do dogma, cuja letra e cujo espírito quer que respeitemos. Os sectários que, em nome
de sua razão, ou melhor, de sua desrazão individual, tocaram o dogma, perderam, por esse mesmo fato, o
espírito de caridade, excomungaram a si próprios.
O dogma católico, isto é, universal, merece esse belo nome resumindo todas as aspirações religiosas do
mundo; ele afirma a unidade de Deus com Moisés e Maomé, reconhece em si a trindade infinita da geração
eterna com Zoroastro, Hermes e Platão, concilia com o Verbo único de São João os números vivos de
Pitágoras, eis o que a ciência e a razão podem constatar. É portanto diante da própria razão e diante da ciência
o dogma mais perfeito, isto é, o mais perfeito que alguma vez se produziu no mundo. Que a ciência e a razão
nos concedam isso, não lhes pediremos mais nada.
Substituir o despotismo legítimo da lei pelo arbitrário humano, pôr, em outras palavras, a tirania no lugar da
autoridade é obra de todos os protestantismos e de todas as democracias. O que os homens chamam de
liberdade é a sanção da autoridade ilegítima ou, antes, a ficção do poder não sancionado pela autoridade.
João Calvino protestava contra as fogueiras de Roma para se dar o direito de queimar Miguel Servet. Todo
povo que se libertou de um Carlos I ou de um Luís XVI submeteu-se a um Robespierre ou a um Cromwel, e
existe um antipapa mais ou menos absurdo por trás de todos os protestos contra o papado legítimo.
A divindade de Jesus Cristo só existe na Igreja católica, para a qual ele transmite hierarquicamente sua vida e
seus poderes divinos. Essa divindade é sacerdotal e real por comunhão, mas fora dessa comunhão toda
afirmação da divindade de Jesus Cristo é idolátrica, porque Jesus Cristo não poderia ser um Deus separado.
Pouco importa à verdade católica o número dos protestantes.
Se todos homens fossem cegos, essa seria uma razão para negar a existência do sol?
A razão, protestando contra o dogma, prova suficientemente que não o inventou, mas é forçada a admirar a
moral que resulta desse dogma. Ora, se a moral é uma luz, é preciso que o dogma seja um sol, a claridade não
vem das trevas.
Entre os abismos do politeísmo e do deísmo absurdo e limitado, só há um meio possível: o mistério da
santíssima trindade.
Entre o ateísmo especulativo e o antropomorfismo só há um meio possível: o mistério da encarnação.
Entre a fatalidade imoral e a responsabilidade draconiana que decidiria pela danação de todos os seres, só há
um meio possível: o mistério da redenção.
A trindade é a fé.
A encarnação é a esperança.
A redenção é a caridade.
A trindade é a hierarquia.
A encarnação é a autoridade divina da Igreja.
A redenção é o sacerdócio único, infalível, indefectível e católico.
Somente a Igreja católica possui um dogma invariável e encontra-se por sua própria constituição na
impossibilidade de corromper a moral; ela não inova, explica. Assim, por exemplo, o dogma da imaculada
concepção não é novo, estava inteiramente contido no Théotokon do concílio de Éfeso, e o Théotokon é uma
conseqüência rigorosa do dogma católico da encarnação.
Da mesma forma, a Igreja católica não faz excomunhões, ela as declara e só ela as pode declarar, porque é a
única guardiã da unidade.
Fora da barca de Pedro, só há o abismo. Os protestantes assemelham-se às pessoas que, cansadas da arfagem,
jogar-se-iam na água para evitar o enjôo.
E da catolicidade, tal qual é constituída na Igreja católica, que é preciso dizer o que Voltaire disse de Deus
com tanta ousadia.
Se não existisse, seria preciso inventá-la. Mas, se um homem fosse capaz de inventar o espírito de caridade,
teria também inventado Deus. A caridade não se inventa, revela-se por suas obras, e é então que se pode gritar
com o Salvador do mundo: Felizes os que têm o coração puro, pois verão a Deus!
Entender o espírito de caridade é ter a inteligência de todos os mistérios.
ARTIGO IV
Solução do quarto problema
A Religião Provada pelas objeções que lhe são opostas
As objeções que se pode fazer contra a religião podem ser feitas seja em nome da razão, seja em nome da fé.
A ciência não pode negar os fatos da existência da religião, de seu estabelecimento e de sua influência sobre
os acontecimentos da história. É proibido a ela tocar no dogma, o dogma pertence inteiramente à fé.
A ciência arma-se comumente contra a religião com uma série de fatos que tem o direito de apreciar, que de
fato aprecia com severidade, mas que a religião condena mais energicamente ainda do que a ciência.
Assim fazendo, a ciência dá razão à religião e censura a si própria; carece de lógica, acusa a desordem que
toda paixão rancorosa introduz no espírito dos homens e a necessidade incessante que ele tem de ser reerguido
e dirigido pelo espírito de caridade.
A razão, por sua vez, examina o dogma e considera-o absurdo.
Mas, se não o fosse, a razão compreendê-lo-ia; se ela o compreendesse, não seria mais a fórmula do
desconhecido.
Seria uma demonstração matemática do infinito.
Seria o infinito finito, o desconhecido conhecido, o incomensurável medido, o indizível nomeado.
Isso quer dizer que o dogma só deixaria de ser absurdo diante da razão, para se tornar, diante da fé, da ciência,
da razão e do bom senso reunidos, o mais monstruoso e o mais impossível de todos os absurdos.
Restam as objeções da fé dissidente.
Os israelitas, nossos pais em religião, censuram-nos por termos atentado contra a unidade de Deus, por termos
mudado uma lei imutável e eterna, por adorarmos a criatura no lugar do criador.
Essas censuras são fundamentadas numa noção perfeitamente falsa do cristianismo.
Nosso Deus é o Deus de Moisés, Deus único, imaterial, infinito, o só adorável e sempre o mesmo.
Como os judeus, acreditamo-lo presente em todos os lugares, mas, como eles deveriam fazer, acredítamo-lo
vivo, pensante e amante na humanidade e adoramo-lo em suas obras.
Não mudamos sua lei, pois o decálogo dos israelitas é também a lei dos cristãos.
A lei é imutável, porque está fundamentada em princípios eternos da natureza; mas o culto exigido pelas
necessidades do homem pode variar e modificar-se com os homens.
O que o culto significa é imutável, mas o culto modifica-se como as línguas.
O culto é um ensinamento, é uma língua, é preciso traduzi-lo quando as nações não o compreendem mais.
Traduzimos e não destruímos o culto de Moisés e dos profetas.
Adorando Deus na criação, não estamos adorando a própria criação.
Adorando Deus em Jesus Cristo, é somente Deus que adoramos, mas Deus unido à humanidade.
Tornando a humanidade divina, o cristianismo revelou a divindade humana.
O Deus dos judeus era inumano, porque eles não o compreendiam em suas obras.
Somos, portanto, mais israelitas que os próprios israelitas. No que acreditam, acreditamos com eles e melhor
que eles. Acusam-nos de estarmos separados dele e são eles, ao contrário, que querem estar separados de nós.
Esperamo-los de coração e braços abertos.
Somos, como eles, discípulos de Moisés.
Como eles, viemos do Egito e detestamos sua servidão. Mas nós estamos na terra prometida, e eles obstinamse
em permanecer e morrer no deserto.
Os muçulmanos são os bastardos de Israel, ou melhor, são seus filhos deserdados, como Esaú.
Sua crença é ilógica, pois admitem que Jesus é um grande profeta, e tratam os cristãos como infiéis.
Reconhecem a inspiração divina de Moisés e não vêem os judeus como irmãos.
Acreditam cegamente em seu cego profeta, o fatalista Maomé, o inimigo do progresso e da liberdade.
Não tiremos, no entanto, de Maomé a glória de ter proclamado a unidade de Deus entre os árabes idólatras.
Encontram-se no Alcorão páginas puras e sublimes.
É lendo essas páginas que se pode dizer com os filhos de Ismael: Não existe outro Deus senão Deus, e Maomé
é seu profeta.
Há três tronos no céu para os três profetas das nações; mas, no fim dos tempos, Maomé será substituído por
Elias.
Os muçulmanos nada censuram nos cristãos, eles injuriam-nos.
Chamam-nos de infiéis e de giaurs, isto é, cães. Não temos nada a lhes responder.
Não se deve refutar os turcos e os árabes, é preciso instruí-los e civilizá-los.
Restam os cristãos dissidentes, isto é, aqueles que, tendo rompido o laço de união, declaram-se estrangeiros à
caridade da Igreja.
A ortodoxia grega, irmã gêmea da Igreja romana, que não cresceu desde sua separação, que não tem mais
importância nos faustos religiosos, que, desde Fócio, não inspirou uma única eloqüência; Igreja que se tornou
inteiramente temporal e cujo sacerdócio não é mais que uma função regulada pela política imperial do czar de
todas as Rússias; múmia curiosa da Igreja primitiva, colorida e dourada com todas as suas lendas e com todos
os seus ritos que os popes não compreendem mais; sombra de uma Igreja viva, mas que quis parar quando
essa Igreja avançava e que não é mais que uma silhueta apagada e sem cabeça.
Depois, os protestantes, esses eternos reguladores da anarquia, que romperam o dogma e tentam sempre
preenchê-lo com raciocínios, como o tonel das Danaides; esses fantasistas religiosos cujas inovações em sua
totalidade são negativas, que formularam para uso próprio um desconhecido pretensamente mais conhecido,
mistérios mais explicados, um infinito mais definido, uma imensidão mais restrita, uma fé mais duvidosa, que
quintessenciaram o absurdo, cindiram a caridade e tomaram atos de anarquia pelos princípios de uma
hierarquia para sempre impossível; esses homens que querem realizar a salvação somente pela fé, porque a
caridade lhes escapa e que nada mais podem realizar, mesmo sobre a terra, pois seus pretensos sacramentos
não são mais que farsas alegóricas, não dão mais a graça, não fazem mais ver a Deus nem tocar em Deus, não
são mais, em uma palavra, os signos da onipotência da fé, mas as testemunhas forçadas da impotência eterna
da dúvida.
Foi, portanto, contra a própria fé que a reforma protestou. Os protestantes tiveram razão contra o zelo
inconsiderado e perseguidor que queria forçar as consciências. Exigiram o direito de duvidar, o direito de ter
menos religião ou de não a ter absolutamente; derramaram seu sangue por esse triste privilégio; conquistaramno,
possuem-no, mas não nos tirarão o de lastimá-los e de amá-los. Quando sentirem novamente a
necessidade de acreditar, quando seu coração revoltar-se por sua vez contra a tirania de uma razão falseada,
quando se cansarem das frias abstrações de seu dogma arbitrário, das vãs observâncias de seu culto sem
efeito, quando sua comunhão sem presença real, suas igrejas sem divindade e sua moral sem perdão os
aterrorizarem enfim, assim que ficarem doentes da nostalgia de Deus, não se levantarão como o filho pródigo
e não virão jogar-se aos pés do sucessor de Pedro dizendo-lhe: Pai, pecamos contra o céu e contra vós, já não
somos dignos de ser chamados vossos filhos, mas incluí-nos ao menos entre vossos mais humildes servidores.
Não falaremos da crítica de Voltaire. Esse grande espírito estava dominado por um ardente amor pela verdade
e pela justiça, mas faltava-lhe esta retidão do coração que dá a inteligência da fé. Voltaire não podia admitir a
fé, porque não sabia amar. O espírito de caridade não se revelou a essa alma sem ternura, e ele criticou
amargamente um fogo cujo calor não sentia e uma lâmpada cuja luz não via. Se a religião fosse tal qual viu,
teria tido mil vezes razão em atacá-la e seria preciso ajoelhar-se diante do heroismo de sua coragem. Voltaire
seria o messias do bom senso, o hércules destruidor do fanatismo. Mas este homem ria demais para
compreender aquele que disse: Felizes dos que choram, e a filosofia do riso nunca terá nada em comum com a
religião das lágrimas.
Voltaire parodiou a Bíblia, o dogma, o culto, depois ridicularizou, achincalhou, vilipendiou sua paródia.
Apenas aqueles que vêem a religião na paródia de Voltaire podem se ofender com isso. Os voltairianos
assemelham-se às rãs da fábula que saltam sobre as vigas e, em seguida, zombam da majestade real. São
livres para tomar a viga por um rei, são livres para refazer esta caricatura romana de que, outrora, Tertuliano
ria, e que representava o Deus dos cristãos na figura de um homem com cabeça de asno. Os cristãos darão de
ombros ao ver essa brejeirice e pedirão a Deus pelos pobres ignorantes que pretendiam insultá-los.
O senhor conde Joseph de Maistre, depois de ter representado, num de seus mais eloqüentes paradoxos, o
carrasco como um ser sagrado e como uma encarnação permanente de justiça divina na terra, queria que se
erguesse para o ancião de Ferney uma estátua pela mão do carrasco. Existe profundidade nesse pensamento.
Voltaire, com efeito, foi também, no mundo, um ser ao mesmo tempo providencial e fatal, dotado de
insensibilidade para a realização de suas terríveis funções. Foi, no domínio da inteligência, um executor das
grandes obras, um executor armado com a própria justiça de Deus.
Deus enviou Voltaire entre o século de Bossuet e o de Napoleão para aniquilar tudo o que separa esses dois
gênios e reuni-los num só.
Era o Sansão do espírito, sempre pronto a sacudir as colunas do templo; mas, para fazê-lo girar, a contragosto,
a pedra do moinho do progresso religioso, a Providência parecia ter cegado seu coração.
ARTIGO V
Solução do último problema
Separar a religião da superstição e do fanatismo
A superstição, da palavra latina superstes, sobrevivente, é o símbolo que sobreviveu à idéia, é a forma
preferida à coisa, é o rito sem razão, é a fé tornada insensata, porque se isola. E, por conseguinte, o cadáver da
religião, a morte da vida, é a inspiração substituída pelo embrutecimento.
O fanatismo é a superstição apaixonada, seu nome vem da palavra fanum, que significa templo, é o templo
colocado no lugar de Deus, é a honra do sacerdote substituída pelo interesse humano e temporal do padre, é a
paixão miserável do homem explorando a fé do crente.
Na fábula do asno carregado de relíquias, La Fontaine diz-nos que o animal acreditou ser adorado, não nos diz
que algumas pessoas acreditaram de fato adorar o animal. Essas pessoas eram os supersticiosos.
Se alguém tivesse rido de suas tolices, teriam-no talvez assassinado, pois da superstição ao fanatismo há um
só passo.
A superstição é a religião interpretada pela tolice; o fanatismo é a religião servindo de pretexto à fúria.
Os que confundem proposital e preconceituosamente a própria religião com a superstição e o fanatismo
emprestam à tolice suas prevenções cegas e talvez emprestassem ao fanatismo suas injustiças e seus ódios.
Inquisidores ou participantes dos Massacres de Setembro, que importam os nomes? A religião de Jesus Cristo
condena e sempre condenou os assassinos.
RESUMO DA PRIMEIRA PARTE EM FORMA DE DIÁLOGO
A Fé, A Ciência, A Razão
A CIÊNCIA - Nunca me fareis acreditar na existência de Deus.
A FÉ - Não tendes o privilégio de acreditar, mas nunca me provareis que Deus não existe.
A CIÊNCIA - Para vo-lo provar, é preciso que, em primeiro lugar, eu saiba o que é Deus.
A FÉ - Não o sabereis nunca. Se soubésseis, poderíeis ensinarmo, e, quando eu o soubesse, não mais
acreditaria nele.
A CIÊNCIA - Acreditais, então, sem saber em que estais acreditando?
A FÉ - Ali! não joguemos com as palavras. Sois vós quem não sabeis em que eu acredito, precisamente
porque vós não o sabeis. Tendes a pretensão de ser infinita? Não sois interrompida a cada instante pelo
mistério? O mistério é para vós uma ignorância que reduziria ao nada o finito de vosso saber, se eu não o
iluminasse com minhas ardentes inspirações, e quando dizeis: Eu não sei mais, eu gritaria: Quanto a mim,
começo a acreditar.
A CIÊNCIA - Mas vossas aspirações e seu objeto são e só podem ser hipóteses para mim.
A FÉ - Sem dúvida, mas são certezas para mim, uma vez que sem essas hipóteses eu duvidaria até mesmo de
vossas certezas.
A CIÊNCIA - Mas, se começais onde eu paro, começais temerariamente muito cedo. Meus progressos
atestam que eu ando sempre.
A FÉ - Que importam os vossos progressos, se ando sempre na vossa frente?
A CIÊNCIA - Tu, andar! sonhadora da eternidade, desdenhaste demais a terra, teus pés estão dormentes.
A FÉ - Sou carregada por meus filhos!
A CIÊNCIA - São cegos que carregam um outro, cuidado com os precipícios!
A FÉ - Não, meus filhos não são cegos, muito pelo contrário, desfrutam de dupla visão, vêem por teus olhos o
que tu podes demonstrar para eles na terra e contemplam, pelos meus, o que lhes mostro no céu.
A CIÊNCIA - O que a razão pensa disso?
A RAZÃO - Penso, ó caras mestras, que poderíeis realizar um apólogo tocante, o do paralítico e o do cego. A
ciência censura a fé por não saber andar na terra, e a fé diz que a ciência não vê nada no céu das aspirações e
da eternidade. Ao invés de brigarem, ciência e fé deveriam unir-se: que a ciência carregue a fé e a fé console a
ciência, ensinando-lhe esperar e amar.
A CIÊNCIA - Essa idéia é bela, mas é uma utopia. A fé dir-me-á absurdos, e eu quero andar sem ela.
A FÉ - O que é que chamais de absurdos?
A CIÊNCIA - Chamo de absurdos as proposições contrárias às minhas demonstrações, como, por exemplo,
que três são um, que um Deus fez-se homem, isto é, que o infinito fez-se finito. Que o Eterno morreu, que
Deus puniu seu filho inocente pelo pecado dos homens culpados...
A FÉ - Não digas mais nada. Externadas por ti, essas proposições são, de fato, absurdos. Por acaso sabes o
que é o número em Deus, tu que não conheces Deus? És capaz de raciocinar sobre as operações do
desconhecido? És capaz de entender os mistérios da caridade? Devo ser sempre absurda para ti, pois se
entendesses minhas afirmações, elas seriam absorvidas por teus teoremas; eu seria tu, e tu serias eu, para dizer
melhor, eu não existiria mais, e a razão, em presença do infinito, deter-se-ia sempre cegada por tuas dúvidas
tão infinitas quanto o espaço.
A CIÊNCIA - Pelo menos, nunca usurpes minha autoridade, não me desmintas em meus domínios.
A FÉ - Nunca o fiz, e não posso nunca o fazer.
A CIÊNCIA - Assim, nunca acreditaste, por exemplo, que uma virgem possa ser mãe sem deixar de ser
virgem, e isso na ordem física, natural e positiva, a despeito de todas as leis da natureza; não afirmas que um
pedaço de pão é não somente um Deus mas um corpo humano verdadeiro, com ossos e veias, órgãos, sangue,
de maneira que fazes de teus filhos que comem esse pão um povinho antropófago.
A FÉ - Não é cristão quem não se revolte com o que acabaste de dizer. Isso prova o suficiente que eles não
entendem meus ensinamentos dessa maneira positiva e grosseira. O sobrenatural que afirmo está acima da
natureza e não poderia, por conseguinte, opor-se a ela, as palavras de fé só são compreendidas pela fé; nada
que, em as repetindo, a ciência desnature. Sirvo-me de tuas palavras, porque não tenho outras; mas uma vez
que achas meus discursos absurdos, deves concluir que dou a essas mesmas palavras um significado que te
escapa. O Salvador, ao revelar o dogma da presença real, não disse: A carne aqui não tem nenhuma serventia,
minhas palavras são espírito e vida? Não te apresento o mistério da encarnação como um fenômeno de
anatomia nem o da transubstanciação como uma manifestação química. Com que direito gritarias ao absurdo?
Eu não raciocino sobre nada do que conheceis; com que direito dirias que eu disparato?
A CIÊNCIA - Começo a te compreender, ou melhor, vejo que nunca te compreenderei. Nesse caso,
continuemos separadas, nunca precisarei de ti.
A FÉ - Sou menos orgulhosa e reconheço que me podes ser útil. Talvez também sem mim estarias bem triste e
bem desesperada, e não quero separar-me de ti, a menos que a razão o consinta.
A RAZÃO - Não façais isso. Sou necessária a ambas. E eu, que faria sem vós? Preciso saber e crer para ser
justa. Mas nunca devo confundir o que sei com o que acredito. Saber não é mais acreditar, acreditar não é
saber ainda. O objeto da ciência é o conhecido, a fé não se ocupa dele e deixa-o inteiramente à ciência. O
objeto da fé é o desconhecido, a ciência pode buscá-lo, mas não defini-lo; é portanto forçada, pelo menos
provisoriamente, a aceitar as definições da fé que lhe é até mesmo impossível de criticar. Somente se a ciência
renuncia à fé, renuncia à esperança e ao amor, cuja existência e necessidade são, no entanto, tão evidentes
para a ciência quanto para a fé. A fé, como fato psicológico, pertence ao domínio da ciência, e a ciência, como
manifestação da luz de Deus na inteligência humana, pertence ao domínio da fé. A ciência e a fé devem,
portanto, aceitar-se, respeitar-se mutuamente, até mesmo sustentar-se e socorrer-se nas necessidades, mas sem
nunca usurpar uma à outra. O meio de as unir é nunca as confundir. Mas não deve haver contradição entre
elas, pois servindo-se das mesmas palavras não falam a mesma língua.
A FÉ - Pois bem! irmã ciência, o que dizeis disso?
A CIÊNCIA - Digo que estávamos separadas por um deplorável mal-entendido e que, doravante, podemos
andar juntas. Mas a qual de seus símbolos vais-me associar? Serei judia, católica, muçulmana ou protestante?
A FÉ - Continuarás sendo a ciência e serás universal.
A CIÊNCIA - Ou seja, católica, se bem compreendo. Mas o que devo pensar das diferentes religiões?
A FÉ - Julga-as por suas obras. Procure a caridade verdadeira e, quando a tiver encontrado, pergunta-lhe a que
culto pertence.
A CIÊNCIA - Não será certamente ao dos inquisidores e dos carrascos da Noite de São Bartolomeu.
A FÉ - É ao de São João, o Esmoler, de São Francisco de Sales, de São Vicente de Paulo, de Fenelon e de
tantos outros.
A CIÊNCIA - Reconheceis que, se a religião produziu algum bem, fez também muito mal.
A FÉ - Quando se mata em nome do Deus que disse: Não matarás, quando se persegue em nome daquele que
quer que se perdoe os inimigos, quando se propaga trevas em nome daquele que não quer que se oculte a luz,
será justo atribuir o crime à própria lei que o condena? Dize, se quereis ser justa, que, apesar da religião,
muito mal foi feito na terra. Mas, também, quantas virtudes ela fez nascer, quantos devotamentos e sacrifícios
ignorados? Contaste estes nobres corações de ambos os sexos que renunciaram a todas as alegrias para se pôr
ao serviço de todas as dores? Essas obras devotadas ao trabalho e à oração que passaram fazendo o bem?
Quem pois fundou asilos para os órfãos e os idosos, hospícios para os doentes, retiros para o arrependimento?
Essas instituições tão gloriosas quanto modestas são obras reais de que os anais da Igreja estão cheios; as
guerras de religião e os suplícios dos sectários pertencem à política dos séculos bárbaros. Os sectários, aliás,
eram eles próprios assassinos. Esquecestes a fogueira de Miguel Servet e o massacre de nossos padres
renovado ainda em nome da humanidade e da razão pelos revolucionários inimigos da inquisição e da Noite
de São Bartolomeu? Os homens são sempre cruéis, quando esquecem a religião que os abençoa e perdoa.
A CIÊNCIA - Ó fé, perdoa-me então se não posso acreditar, mas sei agora por que és crente. Respeito tuas
esperanças e partilho de teus desejos. Mas é pesquisando que eu encontro e é preciso que eu duvide para
pesquisar.
A RAZÃO - Trabalha e procura, então, ó ciência, mas respeita os oráculos da fé. Quando tua dúvida deixar
uma lacuna no ensinamento universal, permite à fé preenchê-la. Andai distintas uma da outra, mas apoiadas
uma na outra, e nunca vos separeis.
SEGUNDA PARTE
Mistérios Filosóficos
Considerações preliminares
Diz-se que o belo é o esplendor do verdadeiro.
Ora, a beleza moral é a bondade. É belo ser bom.
Para ser bom com inteligência, é preciso ser justo.
Para ser justo, é preciso agir com razão.
Para agir com razão, é preciso ter a ciência da realidade.
Para ter a ciência da realidade, é preciso ter consciência da verdade.
Para ter consciência da verdade, é preciso ter uma noção exata do ser.
O ser, a verdade, a razão e a justiça são os objetos comuns das buscas da ciência e das aspirações da fé. A
concepção de um poder supremo, real ou hipotético, transforma a justiça em Providência, e a noção divina,
por esse ponto de vista, torna-se acessível à própria ciência.
A ciência estuda o ser em suas manifestações parciais, a fé o supõe, ou melhor, o admite a priori em sua
generalidade.
A ciência busca a verdade em todas as coisas, a fé relaciona todas as coisas a uma verdade universal e
absoluta.
A ciência verifica realidades no detalhe, a fé explica-as por uma realidade de conjunto que a ciência não pode
verificar, mas que a própria existência dos detalhes parece forçá-la a reconhecer e a admitir.
A ciência submete as razões das pessoas e das coisas à razão matemática e universal; a fé procura, ou melhor,
supõe nas próprias matemáticas e acima das matemáticas uma razão inteligente e absoluta.
A ciência demonstra a justiça pela justiça; a fé dá justeza absoluta à justiça, subordinando-a à Providência.
Vê-se aqui tudo o que a fé empresta à ciência e tudo o que a ciência, por sua vez, deve à fé.
Sem a fé, a ciência está circunscrita por uma dúvida absoluta e encontra-se eternamente estacionada no
empirismo arriscado a um ceticismo raciocinador; sem a ciência, a fé constrói suas hipóteses ao acaso e só
pode prejulgar cegamente as causas dos efeitos que ignora.
A grande corrente que reúne ciência e fé é a analogia.
A ciência está forçada a respeitar uma crença cujas hipóteses são análogas às verdades demonstradas. A fé,
que atribui tudo a Deus, está forçada a admitir a ciência como uma revelação natural que, pela manifestação
parcial das leis da razão eterna, dá uma escala de proporções a todas as aspirações e a todos os ímpetos da
alma no domínio do desconhecido.
É somente a fé, portanto, que pode dar uma solução aos mistérios da ciência e é, em contrapartida, somente a
ciência que demonstra a razão de ser dos mistérios da fé.
Fora da união e do concurso dessas duas forças vivas da inteligência, não há para a ciência senão ceticismo e
desespero, para a fé, temeridade e fanatismo.
Se a fé insulta a ciência, blasfema; se a ciência desconhece a fé, abdica.
Agora, escutemo-las falar de comum acordo.
- O Ser está em todos os lugares, diz a ciência. É múltiplo e variável em suas formas, único em sua essência e
imutável em suas leis. O relativo demonstra a existência do absoluto. A inteligência existe no ser. A
inteligência anima e modifica a matéria.
- A inteligência está em todos os lugares, diz a fé. Em nenhum lugar a vida é fatal, uma vez que está regulada.
A regra é a expressão de uma sabedoria suprema. O absoluto em inteligência, o regulador supremo das
formas, o ideal vivo dos espíritos é Deus.
- Em sua identidade com a idéia, o ser é a verdade, diz a ciência.
- Em sua identidade com o ideal, a verdade é Deus, retorque a fé.
- Em sua identidade com minhas demonstrações, o ser é a realidade, diz a ciência.
- Em sua identidade com minhas legítimas aspirações, a realidade é meu dogma, diz a fé.
- Na sua identidade com o verbo, o ser é a razão, diz a ciência.
- Na sua identidade com o espírito de caridade, a mais elevada razão é minha obediência, diz a fé
- Em sua identidade com o motivo dos atos racionais, o ser é a justiça, diz a ciência.
- Em sua identidade com o princípio de caridade, a justiça é a Providência, responde a fé.
Acordo sublime de todas as certezas com todas as esperanças, do absoluto em inteligência e do absoluto em
amor. O Espírito Santo, o espírito de caridade deve assim tudo conciliar e tudo transformar em sua própria
luz. Não é ele o espírito de inteligência, o espírito de ciência, o espírito de conselho, o espírito de força? Ele
deve vir, diz a liturgia católica, e isso será como uma criação nova, e ele mudará a face da terra.
"Rir da filosofia já é filosofar", disse Pascal ao fazer alusão a esta filosofia cética e duvidosa que não
reconhece a fé. E, se existisse uma fé que pisoteasse a ciência, não diríamos que rir de semelhante fé seria dar
provas de verdadeira religião, que é toda caridade, que não tolera o riso, mas ter-se-ia razão em censurar esse
amor pela ignorância e em dizer a essa fé temerária: Já que desconheces tua irmã, não és a filha de Deus!
Verdade, realidade, razão, justiça, providência, tais são os cinco raios da estrela flamejante no centro da qual a
ciência escreverá a palavra Ser, a que a fé acrescentará o nome inefável de Deus.
SOLUÇÃO DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS
Primeira Série
Pergunta - O que é a verdade?
Resposta - É a idéia idêntica ao ser.
P - O que é a realidade?
R - É a ciência idêntica ao ser.
P - O que é a razão?
R - É o verbo idêntico ao ser.
P - O que é a justiça?
R - É o motivo dos atos idênticos ao ser.
P - O que é o absoluto?
R - É o ser.
P - Concebe-se algo acima do ser?
R - Não, mas concebe-se no próprio ser algo de supereminente e de transcendental.
P - O que é?
R - A razão suprema do ser.
P - Conheceis e podeis defini-la?
R - Somente a fé afirma-a e nomeia-a Deus.
P - Existe algo acima da verdade?
R - Acima da verdade conhecida existe a verdade desconhecida.
P - Como se pode racionalmente supor essa verdade?
R - Pela analogia e pela proporção.
P - Como se pode defini-la?
R - Pelos símbolos da fé.
P - Pode-se dizer da realidade a mesma coisa que da verdade?
R - Exatamente a mesma coisa.
P - Existe algo acima da razão?
R - Acima da razão finita existe a razão infinita.
P - O que é a razão infinita?
R - É esta razão suprema do ser a que a fé chama de Deus.
P - Existe algo acima da justiça?
R - Sim, de acordo com a fé, existe a providência em Deus e, no homem, o sacrifício.
P - O que é o sacrifício?
R - É o abandono benévolo e espontâneo do direito.
P - O sacrifício é racional?
R - Não, é uma espécie de loucura maior que a razão, pois a razão é forçada a admirá-lo.
P - Como chamar um homem que age de acordo com a verdade, a realidade, a razão e a justiça?
R - É um homem moral.
P - E se pela justiça ele sacrifica seus atrativos?
R - É um homem de honra.
P - E se, para imitar a grandeza e a bondade da Providência, ele faz mais do que seu dever e sacrifica seu
direito pelo bem dos outros?
R - É um herói.
P - Qual é o princípio verdadeiro do heroismo?
R - É a fé.
P - Qual é o seu sustento?
R - A esperança.
P - E sua regra?
R - A caridade.
P - O que é o bem?
R - É a ordem.
P - O que é o mal?
R - É a desordem.
P - Que prazer é permitido?
R - O gozo da ordem.
P - Que prazer é proibido?
R - O gozo da desordem.
P - Quais são as conseqüências de um e de outro?
R - A vida e a morte na ordem moral.
P - O inferno, com todos os seus horrores, tem, pois, razão de ser no dogma religioso?
R - Sim, é a conseqüência rigorosa de um princípio.
P - E que princípio é esse?
R - A liberdade.
P - O que é a liberdade?
R - É o direito de fazer o dever com a possibilidade de não o fazer.
P - O que é faltar com o dever?
R - É perder o direito. Ora, sendo o direito eterno, perdê-lo significa perda eterna.
P - Não se pode reparar uma falta?
R - Sim, pela expiação.
P - O que é a expiação?
R - É uma sobrecarga de trabalho. Assim, porque fui preguiçoso ontem, devo realizar, hoje, uma dupla tarefa.
P - Que pensar dos que se impõem sofrimentos voluntários?
R - Se é para remediar a atração brutal do prazer, são sábios; se é para sofrer no lugar dos outros, são
generosos; mas, se o fazem sem conselho e sem medida, são imprudentes.
P - Assim, diante da verdadeira filosofia, a religião é sábia em tudo o que ordena?
R - Vós o vedes.
P - Mas se enfim estivermos errados em nossas esperanças eternas?
R - A fé não admite essa dúvida. Mas a própria filosofia deve responder que todos os prazeres da terra não
valem um dia de sabedoria, e que todos os triunfos da ambição não valem um só instante de heroismo e de
caridade.
Segunda Série
P - O que é o homem?
R - O homem é um ser inteligente e corporal feito à imagem de Deus e do mundo, uno em essência, triplo em
substância, imortal e mortal.
P - Dizeis triplo em substância. Teria o homem duas almas ou dois corpos?
R - Não. Tem em si uma alma espiritual, um corpo material e um mediador plástico.
P - Qual é a substância desse mediador?
R - É a luz em parte volátil e em parte fixada.
P - O que é a parte volátil dessa luz?
R - É o fluido magnético.
P - E a parte fixada?
R - É o corpo fluídico ou arornal.
P - A existência desse corpo é demonstrada?
R - Sim, pelas experiências mais curiosas e mais conclusivas. Falaremos disso na terceira parte deste livro.
P - Essas experiências são artigos de fé?
R - Não, pertencem à ciência.
P - Mas a ciência preocupar-se-ia com isso?
R - Ela já se preocupa, uma vez que escrevemos este livro e uma vez que o ledes.
P - Dai-nos algumas noções sobre esse mediador plástico.
R - Ele é formado por uma luz astral ou terrestre e transmite ao corpo humano a dupla imantação. Ao agir
sobre essa luz, a alma, por suas volições, pode dissolvê-la ou coagulá-la, projetá-la ou atraí-la. Ela é o espelho
da imaginação e dos sonhos. Reage sobre o sistema nervoso e produz, assim, os movimentos do corpo. Essa
luz pode dilatar-se indefinidamente e comunicar suas imagens a distâncias consideráveis, ela imanta os corpos
submetidos à ação do homem e pode, fechando-se, atraí-los para si. Pode assumir todas as formas evocadas
pelo pensamento e, nas coagulações passageiras de sua parte resplandecente, aparecer aos olhos e até mesmo
oferecer uma espécie de resistência ao contato. Se essas manifestações e esses usos do mediador plástico são
anormais, o instrumento luminoso não pode produzi-las sem ser falseado e causam necessariamente ou
alucinação ou loucura.
P - O que é o magnetismo animal?
R - É a ação de um mediador plástico sobre um outro para dissolver ou coagular. Aumentando a elasticidade
da luz vital e sua força de projeção, ela é enviada tão longe quanto se deseje e é retirada totalmente carregada
de imagens, mas é preciso que essa operação seja favorecida pelo sono do sujeito, que se produz com maior
coagulação da parte fixa de seu mediador.
P - O magnetismo é contrário à moral e à religião?
R - Sim, quando dele se abusa.
P - O que é abusar dele?
R - É servir-se dele de maneira desordenada ou para um fim desordenado.
P - O que é um magnetismo desordenado?
R - É uma emissão fluídica malsã e feita com más intenções, por exemplo, para saber os segredos dos outros
ou para chegar a fins injustos.
P - Qual é, então, seu resultado?
R - Falseia no magnetizador e no magnetizado o instrumento fluídico de precisão. E é a essa causa que se
devem atribuir as imoralidades e as loucuras reprovadas num grande número de pessoas que lidam com o
magnetismo.
P - Quais as condições necessárias para se magnetizar convenientemente?
R - A saúde do espírito e do corpo; a intenção reta e a prática discreta.
P - Que vantagens pode-se obter pelo magnetismo bem dirigido?
R - A cura das doenças nervosas, a análise dos pressentimentos, o restabelecimento das harmonias fluídicas, a
descoberta de alguns segredos da natureza.
P - Explicai-nos tudo isso de uma maneira mais completa.
R - Nós o faremos na terceira parte desta obra que tratará especialmente dos mistérios da natureza.
TERCEIRA PARTE
Os Mistérios da Natureza
O Grande Agente Mágico
Falamos de uma substância propagada no infinito
A décima chave do Tarô
A substância una que é céu e terra, isto é, conforme seus graus de polarização, sutil ou fixa.
Essa substância é o que Hermes Trismegisto chama de grande Telesma. Quando produz o esplendor, ela
denomina-se luz.
É essa substância que Deus cria antes de todas as coisas, quando diz: Que seja a luz.
Ela é ao mesmo tempo substância e movimento. É um fluido e uma vibração perpétua.
A força que a põe em movimento e que lhe é inerente denomina-se magnetismo.
No infinito, essa substância única é o éter ou a luz etérea.
Nos astros que magnetiza, torna-se luz astral.
Nos seres organizados, luz ou fluido magnético.
No homem, forma o corpo astral ou o mediador plástico.
A vontade dos seres inteligentes age diretamente sobre essa luz e, por meio dela, sobre toda a natureza
submetida às modificações da inteligência.
Essa luz é o espelho comum de todos os pensamentos e de todas as formas; guarda as imagens de tudo o que
foi, os reflexos dos mundos passados e, por analogia, os esboços dos mundos futuros. E o instrumento da
taumaturgia e da adivinhação, como nos resta explicar na terceira e última parte desta obra.
LIVRO I
OS Mistérios Magnéticos
CAPÍTULO I
A Chave do Mesmerismo
Mesmer encontrou a ciência secreta da natureza, ele não a inventou.
A substância primeira, única e elementar, cuja existência ele proclama em seus aforismos, era conhecida por
Hermes e por Pitágoras.
Sinésio, que a canta em seus hinos, encontrara sua revelação em meio às lembranças platônicas da escola de
Alexandria:
Mia paga, mic riza
Trifahj elcmfe morfc
. . . . . . . . . . . . . . . . . .
Peri gan spareisc pnoic
Cqonoj` ezwwse moifcj
Polndaidcloisi morcij
"Uma única fonte, uma única raiz de luz jorra e abre-se em três ramos de esplendor. Um sopro circula em
volta da terra e vivifica, sob inumeráveis formas, todas as partes da substância animada."
Hinos de Sinésio, hino 11
Mesmer viu na matéria elementar uma substância indiferente tanto ao movimento quanto ao repouso.
Submetida ao movimento é volátil, de volta ao repouso é fixa, e ele não compreendeu que o movimento é
inerente à substância primeira, que resulta não de, sua indiferença, mas de sua aptidão combinada a um
movimento e a um repouso equilibrados um pelo outro: que o repouso não está em nenhuma parte na matéria
uníversalmente viva, mas que o fixo atrai o volátil para fixá~lo, enquanto o volátil corrói o fixo para
volatilizá-lo. Que o pretenso repouso das partículas aparentemente fixadas é somente uma luta mais
encarniçada e uma tensão maior de suas forças fluídicas que se imobilizam neutralizando-se. É assim que,
segundo Hermes, o que está no alto é como o que está embaixo, a mesma força que dilata o vapor contrai e
endurece o gelo; tudo obedece às leis da vida inerentes à substância primeira; essa substância atrai e repele e
coagula-se e dissolve-se numa constante harmonia; é dupla; é andrógina; abraça-se e fecunda-se; luta, triunfa,
destrui, renova, mas nunca se abandona à inércia, pois a inércia seria a morte para ela.
É essa substância primeira que se designa na narrativa hierática do Gênesis, quando o verbo dos Eloim faz a
luz ordenando-lhe que seja.
Eloim diz: Que seja a luz, e a luz foi.
Essa luz,cujo nome hebreu é r u t, or, é o ouro fluido e vivo da filosofia hermética. Seu princípio positivo é o
enxofre deles; seu princípio negativo, o mercúrio, e seus princípios equilibrados formam o que eles
denominaram seu sal.
Seria preciso, pois, em vez do sexto aforismo de Mesmer assim concebido:
"A matéria é indiferente a estar em movimento ou a estar em repouso."
Estabelecer este:
A matéria universal é necessária ao movimento por sua dupla magnetização e procura fatalmente o equilíbrio.
E deste deduzir os seguintes:
A regularidade e a variedade no movimento resultam das combinações diversas do equilíbrio.
Um ponto equilibrado por todos os lados permanece imóvel pelo próprio fato de ser dotado de movimento.
O fluido é uma matéria em grande movimento e sempre agitada pela variação dos equilíbrios.
O sólido é a mesma matéria em pequeno movimento ou em repouso aparente, porque está mais ou menos
equilibrada.
Não há corpo sólido que não possa ser imediatamente pulverizado, esvair-se em fumaça e tornar-se invisível,
se o equilíbrio de suas moléculas viesse a cessar de repente.
Não há corpo fluido que não possa tornar-se num segundo mais duro que o diamante, sim se pudesse
equilibrar imediatamente suas moléculas constitutivas.
Dirigir os ímãs, portanto, é destruir ou criar as formas, é produzir em aparência ou anular os corpos, é exercer
a onipotência da natureza.
Nosso mediador plástico é um ímã que atrai ou repele a luz astral sob a pressão da vontade. É um corpo
luminoso que reproduz com a maior facilidade as formas correspondentes às idéias.
É o espelho da imaginação. Esse corpo alimenta-se de luz astral, exatamente como o corpo orgânico alimentase
dos produtos da terra. Durante o sono ele absorve a luz por imersão e, durante a vigília, por uma espécie de
respiração mais ou menos lenta. Quando se produzem os fenômenos do sonambulismo natural, o mediador
plástico está sobrecarregado por uma alimentação que digere mal. A vontade, então, embora ligada pelo
torpor do sono, impele instintivamente o mediador em direção aos órgãos para liberá-lo, e produz-se uma
reação, de certa forma mecânica, que equilibra pelo movimento do corpo a luz do mediador. É por isso que é
tão perigoso acordar os sonâmbulos com um sobressalto, pois o mediador ingurgitado pode, então, retirar-se
subitamente para o reservatório comum e abandonar inteiramente os órgãos que se encontram, nesse
momento, separados da alma, o que ocasiona a morte.
O estado de sonambulismo, seja natural, seja factício, é, pois, extremamente perigoso, porque, ao reunir os
fenômenos da vigília aos do sono, constitui uma espécie de grande lacuna entre dois mundos. Ao movimentar
as moias da vida particular, a alma, banhando-se na vida universal, experimenta um bem-estar indizível e
abandonaria de bom grado as ramificações nervosas que a mantêm suspensa acima da corrente. Nos êxtases
de todos os tipos a situação é a mesma. Se a vontade aí mergulha num esforço apaixonado ou mesmo se a isso
se abandona inteiramente, o sujeito pode ficar idiota, paralisado ou morrer.
As alucinações e as visões resultam de ferimentos causados ao mediador plástico e de sua paralisia local. Ora
ele cessa de irradiar e substitui as realidades mostradas pela luz por imagens de algum modo condensadas, ora
irradia com muita força e condensa-se fora, em torno de alguma morada fortuita e desregulada, como o
sangue nas excrescências da carne, então as quimeras do nosso cérebro tomam um corpo e parecem tomar
uma alma, parecemos a nós mesmos radiosos ou disformes como o ideal de nossos desejos ou de nossos
temores.
Sendo as alucinações sonhos de pessoas acordadas, supõem sempre um estado análogo ao sonambulismo,
porém em sentido contrário; o sonambulismo é o sono tomando emprestado ao despertar seus fenômenos; a
alucinação é a vigília sujeita ainda em parte à embriaguez astral do sono.
Nossos corpos fluídicos atraem-se e repelem-se uns aos outros, segundo leis consoantes às da eletricidade. É o
que produz as simpatias e as antipatias instintivas. Equilibram-se, assim, uns aos outros, e é por isso que as
alucinações são frequentemente contagiosas; as projeções anormais mudam as correntes luminosas; a
perturbação de um doente ganha as naturezas mais sensitivas, um círculo de ilusões estabelece-se e toda uma
multidão é facilmente arrastada para ele. É a história das aparições estranhas e dos prodígios populares. Assim
explicam-se os milagres dos médiuns da América e as vertigens dos giradores de mesa, que reproduzem em
nossos dias os êxtases dos dervixes giradores. Os bruxos lapões com seus tambores mágicos e os malabaristas
curandeiros chegam a resultados parecidos por procedimentos semelhantes; seus deuses ou seus diabos em
nada contribuem.
Os loucos e os idiotas são mais sensíveis ao magnetismo do que as pessoas sãs de espírito; deve-se
compreender a razão disso; é preciso pouco para virar completamente a cabeça de um homem embriagado, e
contrai-se mais facilmente uma doença quando todos os órgãos estão predispostos a sofrerem suas impressões
e a manifestarem suas desordens.
As doenças fluídicas têm suas crises fatais. Toda tensão anormal do aparelho nervoso termina em tensão
contrária segundo as leis necessárias do equilíbrio. Um amor exagerado transforma-se em aversão, e todo ódio
exaltado está bem próximo do amor; a reação dá-se frequentemente com o estrondo e a violência do raio. A
ignorância, então, desola-se e indigna-se; a ciência resigna-se e cala-se.
Há dois amores, o do coração e o da mente, o amor do coração nunca se exalta, recolhe-se e cresce lentamente
pelas provações e pelos sacrifícios; o amor da mente, puramente nervoso e apaixonado, vive apenas de
entusiasmo, vai contra todos os deveres, trata o objeto amado como coisa conquistada, é egoísta, exigente,
inquieto, tirânico e traz fatalmente consigo o suicídio por catástrofe final ou o adultério por remédio. Esses
fenômenos são constantes como a natureza, inexoráveis como a fatalidade.
Uma jovem artista cheia de futuro e de coragem tinha por marido um homem de bem, um pesquisador
científico, um poeta a quem não podia reprovar senão um excesso de amor por ela, abandonou-o ultrajandoo
e, desde então, continua a odiá-lo. No entanto, ela também é uma boa mulher, mas o mundo impiedoso a julga
e condena. Todavia, não é agora que ela é culpada. Sua culpa, se é permitido lhe imputar alguma, foi em
primeiro lugar ter amado louca e apaixonadamente seu marido.
Mas, dir-se-á, a alma humana então não é livre?
- Não, ela não o é mais desde que se abandona à vertigem das paixões. Apenas a sabedoria é livre, as paixões
desordenadas são o domínio da loucura, e a loucura é a fatalidade.
O que dissemos do amor pode-se dizer também da religião, que é o mais poderoso mas também o mais
inebriante dos amores. A paixão religiosa tem também seus excessos e suas reações fatais. Pode-se ter êxtases
e estigmas, como São Francisco de Assis, e cair em seguida em abismos de devassidão e impiedade.
As naturezas apaixonadas são ímãs exaltados, atraem ou repelem com força.
Podemos magnetizar de duas maneiras: primeiramente, agindo pela vontade sobre o mediador plástico de
outra pessoa, cuja vontade e atos encontram-se, por conseguinte, subordinados a essa ação.
Em segundo lugar, agindo pela vontade de uma pessoa, seja por intimidação, seja por persuasão, para que a
vontade impressionada modifique, segundo nosso desejo, o mediador plástico e os atos dessa pessoa.
Magnetiza-se pela irradiação, pelo contato, pelo olhar e pela palavra.
As vibrações da voz modificam o movimento da luz astral e são um veículo poderoso do magnetismo.
O sopro quente magnetiza positivamente, e o sopro frio magnetiza negativamente.
Uma insuflação quente e prolongada na coluna vertebral, abaixo do cerebelo, pode ocasionar fenômenos
eróticos.
Se for colocada a mão direita sobre a cabeça e a mão esquerda sob os pés de uma pessoa envolta em lã ou em
seda, ela será inteiramente atravessada por uma fagulha magnética, e pode-se ocasionar uma revolução
nervosa em seu organismo com a rapidez de um raio.
Os passes magnéticos servem apenas para dirigir a vontade do magnetizador, confirmando-a através de atos.
São sinais e nada além disso. O ato da vontade é expresso, e não operado, por esses sinais.
O carvão em pó absorve e retém a luz astral. É o que explica o espelho mágico de Dupotet.
Figuras desenhadas a carvão aparecem luminosas para uma pessoa magnetizada e tomam para ela, segundo a
direção dada pela vontade do magnetizador, as mais graciosas ou as mais aterrorizantes formas.
A luz astral, ou melhor, vital do mediador plástico, absorvida pelo carvão, torna-se totalmente negativa; é por
isso que os animais que a eletricidade atormenta, como por exemplo os gatos, gostam de rolar-se no carvão. A
medicina, um dia, utilizará essa propriedade, e as pessoas nervosas encontrarão aí um grande alívio.


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