Ao invés de roupa social, trajava-se todo de branco, dos sapatos à camisa.
Médico? Seria Frank um médico?
"Frank, que prazer em vê-lo!" exclamei.
"Olá, amigo. Como tem passado?" perguntei.
"Muito melhor, estou amadurecendo" eu disse.
"Beto, hoje estou feliz. Dei alta a um paciente que, francamente, foi uma prova em minha carreira. Tratei-o por onze anos. Está curado!"
"Então você é médico? O que tinha seu paciente?"
"Sou médico psiquiatra, e meu paciente sofria da mais estranha combinação de problemas mentais que tive notícia. Mas hoje ele é um homem curado. Graças a Deus!"
"E graças a você também, Frank."
"Sou apenas um instrumento, uma ferramenta. Mas, concordo, mantenho-me afinado, lubrificado. Tento ser uma boa ferramenta."
"Você é a melhor!" exclamei.
"É meu sonho, Beto. Quem sabe, um dia, venha a ser o melhor servo da Providência Divina. Por enquanto, vou fazendo o melhor que posso."
"Você não me disse que era médico. Agora, responda: você veio ao meu encontro por eu ser uma cobaia perfeita para ser usada em sua psiquiatria?" perguntei.
"Não, Beto. Você é um caso para a Magia, meu
amigo. Além disso, não faço uso de cobaias!
Você resolverá todos os seus problemas, alcançará todas as suas expectativas, na Ciência Sagrada. Tudo quanto você desejar, a Magia te fornecerá. Não estou me referindo aos bens materiais, é claro. Eles são importantes, mas não representam porcentagem significativa frente a tudo que a Magia nos oferece."
"Quer dizer que, para ser Mago, temos de abandonar os bens materiais?" perguntei desconfiado.
"Lógico que não.
Só não devemos achar que eles são tudo.
Mas, um Mago não pode passar fome, viver embaixo da ponte, nem ser um miserável.
Deve, isto sim, ser um exemplo.
E alguém exemplar deve viver bem. Faustosa ou modestamente, mas bem.
Há Magos ricos, outros artesãos, mas todos vivem com respeito e dignidade.
O que quis dizer é que não se deve ter, como meta, enriquecer a qualquer custo.
Se enriquecer é o desejo pessoal de alguém, e esse alguém pretende fazer bom uso de sua fortuna, de seu poder, nada há que conflite com a condição de Mago.
Apenas não se deve usar de Magia para enriquecer. Não seria ético.
Também não se deve pisar nos outros, passar por cima das pessoas, pois isso também é errado.
Se alguém quer ficar rico, que trabalhe para isso.
Mas, com respeito pela natureza, pelo ser humano e pela Divindade."
"Entendí. Nada há de errado em ser rico. Ou em ser pobre. O importante é estar bem consigo mesmo,
respeitar-se e aos outros como a você mesmo."
"Exatamente!" exclamou Frank. Nesse exato momento, seu "bip" tocou.
"Beto, aguarde um instante que vou até o carro telefonar."
"Você tem telefone celular?" perguntei.
"No carro. Já volto."
Para não perder o costume, fui até um dos ambulantes do parque e comprei um saquinho com coquinhos fritos.
Voltei ao "meu" banco e, sentando-me, comecei a comer os coquinhos.
Puxa, pensei, até eles tinham gosto diferente quando a gente não está amargo...
Será que Deus está presente até numa porção de coquinhos fritos?
Com certeza...
Nem bem começara a comer meus coquinhos e Frank estava de volta.
Trazia em sua mão direita o mais fantástico telefone celular que eu jamais havia visto.
"Eis-me aqui, Beto.
A pessoa que me chamou deve estar falando ao telefone, pois a linha está ocupada.
Para não deixá-lo esperar muito, resolví voltar com o telefone, para ir tentando novamente minha ligação."
"Que telefone lindo, Frank! Posso vê-lo?" perguntei.
"Claro. Ei-lo."
Tomei o lindo aparelho em minhas mãos. Parecia uma coisa de outro mundo.
"Que aparelho é este, Frank?" perguntei.
"É um IBM SIMON, que engloba telefone e fax, e possúi tela de cristal líquido ao invés de um teclado convencional.
É um desses avanços tecnológicos a serviço da humanidade."
"Sim, e é encantador.
Mas para que um Mago precisa de um telefone celular?" indaguei.
"Para dar e receber telefonemas quando não haja algum aparelho telefônico convencional à mão, Beto." respondeu-me ele.
"Não foi isso que eu quis dizer, Frank.
Perguntei para que alguém com elevação espiritual precisa de bens materiais tão custosos."
"Precisamos do que desejamos, do que nos alegra a alma e o espírito. E do que nos auxilia no trabalho.
Na verdade, um telefone desses não custa mais do que um computador novo.
Além disso, quando fugí da Alemanha nazista, deixei tudo para trás.
Perdi tudo, pois todas as minhas propriedades ficaram do lado que se tornou comunista.
Vim para esta terra abençoada, como se diz, com uma mão na frente e outra atrás.
Aprendí o idioma, assimilei os costumes.
Com muito esforço, conseguí tornar válido, por aqui, meu diploma de médico.
Recomecei tudo do zero.
Hoje estou bem de vida, e sinto-me feliz por isso. Ajudo a quem posso, sempre que necessário.
Só não me sinto, como não sou mesmo, responsável pela miséria que assola este país.
Tudo o que tenho, conquistei trabalhando duro. Não tenho vergonha de estar rico."
"Não sabia nada disso. Você nasceu aonde?"
"Nos Balcans, mais precisamente em Montenegro.
Filho de um casal de diplomatas estrangeiros, nascí lá, mas só fiquei nessa terra até aos dez anos.
Meu pai era o primogênito de uma tradicional família alemã; minha mãe pertencia à nobreza; sua família era rica e poderosa.
Na Alemanha, morávamos num castelo de centenas de anos.
Estudei sempre nos melhores estabelecimentos.
Tínhamos, eu e meus pais, tudo do bom e do melhor."
"Você não tem irmãos?"
"Não, Beto, sou filho único."
Frank parou por alguns instantes, olhando ao longe, como quem tenta recordar o passado fitando as nuvens.
"Continue, Frank, por favor."
"Casei-me, aos vinte e oito anos, com uma jovem muito bonita e culta.
Seu nome era Raquel. Era judia."
"Isso foi antes da II Guerra Mundial?" perguntei.
"Exatamente.
Vivemos juntos por vários anos, muito felizes. Apenas, não tive filhos desse casamento.
Eu tinha uma carreira promissora, era rico e influente.
Minha jovem esposa era de uma família de artistas e intelectuais."
Frank parou um instante, pedindo-me:
"Beto, por favor, dê-me o aparelho."
Ele se referia ao seu telefone celular que eu ainda tinha nas minhas mãos.
Estendí a mão e ele pegou o aparelho.
"Obrigado. Vou tentar ligar novamente."
Digitou uma tecla virtual, no próprio visor de cristal do telefone.
Coisa de ficção científica.
"Ainda ocupado." disse ele, desligando o aparelho.
"Então, continue."
"Você é curioso mesmo, não?"
"Sim, Frank."
"Pois bem.
Nos anos 30, o NSDAP, o Partido Nazista, subiu ao poder na Alemanha.
Instaurou-se, então, um período de terror e obscuridade.
As minorias foram perseguidas e dizimadas.
Bardon fora avisado, por um de seus protetores espirituais, que deveria deixar a Alemanha.
Fora avisado, também, que deveria recomendar a todos os seus amigos e seguidores que destruíssem toda e qualquer prova de amizade com ele.
Quando Bardon me recomendou que também deixasse a Alemanha, relutei, pois tudo o que tinha estava lá.
Ele então me disse que, caso não destruísse todas as provas de nossa amizade, além de fugir imediatamente do país, sofreria revezes imensos.
Disse-lhe que não conseguia entender como Iniciados de sua estirpe tivessem de correr feito coelhos assustados.
'Não temo a morte, amigo Frank, pois seu Anjo é meu amigo.
Mas tenho uma importante missão a completar, nesta vida, e não pretendo deixá-la sem cumprir essa determinação da Providência Divina', foram suas palavras em resposta à minha indagação agressiva.
De qualquer modo, Bardon era um sábio de verdade, e sabia, com certeza, o que dizia.
Destruí, com muita tristeza, toda nossa correspondência.
Como planejava retirar minha esposa e meus pais da Alemanha, viajei à França, para adquirir uma casa aonde pudéssemos nos alojar.
Isso foi no meio da década de 30.
Durante o tempo em que estive fora, agentes da GESTAPO, Polícia Secreta do Estado, junto com membros do NSDAP, e integrantes da FOGC, invadiram minha casa.
Apreenderam muitos documentos, entre eles alguns que comprovavam minha ligação com 'Sociedades Secretas', grupos de ocultistas.
Eu era, então, uma ameaça ao sistema."
"Como assim?" perguntei, meio confuso.
"Ao assumir o poder, Adolf Hitler determinou que todas as 'Sociedades Secretas' fossem extintas.
Maçonaria, Rosacruzes, Fraternitas Saturni, Ordo Templi Orientis, Adonistas, todas estavam prescritas.
Rah Omir Quintscher era um dos mais famosos Magos de então.
Dirigia um grupo de estudos elevados, inclusive sobre Magia Sexual.
Quando fora preso, os agentes da polícia encontraram, em seu poder, correspondências que mantivera com Franz Bardon.
O elo estava, então, criado.
Passaram a perseguir todos os ligados a esse grupo, pois sabiam tratarem-se de Magos competentes, capazes de desmascarar seus verdadeiros propósitos, revelar a verdade sobre o Nacional-Socialismo e a FOGC – Ordem Franco-Massônica da Centúria Dourada.
Essa Ordem, "irmã" da também conhecida Thule- Order, era composta de noventa e nove Lojas, espalhadas pelo mundo.
Cada uma dessas Lojas tinha noventa e nove membros humanos, sendo o centésimo um Demônio.
Hitler fazia parte de uma dessas Lojas, e queria que Bardon lhe revelasse os nomes de todos os membros das outras noventa e oito Lojas espalhadas pelo globo, para que pudessem dominar o mundo.
A Bardon foram oferecidos cargos importantes no III Reich.
Franz, é claro, recusou-se a servir a Hitler e ao Nazismo.
Começou, então, inenarrável perseguição.
Mas voltemos à minha história, minha odisséia pessoal.
Minha esposa e meus pais foram aprisionados.
Deportados para um dos inúmeros campos de extermínio.
Morreram cativos.
Eu estava na França, quando fui avisado, por um amigo, do destino trágico de meus entes queridos.
De início, prostei-me, desesperado.
Depois, resolví que integraria algum movimento de resistência.
Como tinha muitos contatos, acabei sendo recrutado por um grupo de inteligência.
Esse grupo se transformaria, mais tarde, no 'OSS – Office of Strategic Services'.
Nunca fui um guerreiro, portanto minha missão era muito mais intelectual do que de combate.
Colaborei um pouco, mas não creio ter feito o bastante."
"Você tem história, hem?
Mas como um Mago pode tornar-se um guerreiro ou espião?"
"Como diz o ditado, quando a água chega na cintura, aprendemos a nadar.
Tinha, ainda, a esperança de recobrar meus queridos pais e amada esposa.
Fiquei na vã esperança. Pelo menos, tentei.
Melhor que ter ficado de braços cruzados."
"Sem dúvida."
"Continuando.
Com o início da Guerra, o 'OSS' deslocou-me para Casablanca; percebí, então, que não tinha talento para
ser um agente de inteligência.
Resolví que, com o fim da Guerra, emigraria para longe de minhas memórias, e recomeçaria minha vida.
Fiz, nos meus tempos de 'OSS', o que pude. Mas não fui herói.
Na verdade, fiz, como lhe disse, muito pouco. Terminada a Guerra, vim para cá.
Fui morar numa pensão pequenina.
Arrumei emprego como enfermeiro num modesto hospital.
Daí, fui lutando e, pouco a poco, conquistando o que hoje tenho.
Sempre fui um otimista, não me deixando abater pelas circunstâncias.
Como você vê, eu vencí.
E o Nazismo, com todo o poder dado pelos Demônios do Pacto das FOGC, foi derrotado."
"Que Demônios, que pacto? Isso, para mim, é novidade."
"As FOGC, as noventa e nove Lojas, eram comandadas por Magos Negros tibetanos, membros da seita Bon-Pa.
Esses Magos Negros se utilizavam dos membros das Lojas da FOGC para a realização de seus propósitos caóticos.
Ao entrar para uma das Lojas da FOGC, a pessoa tinha de fazer um Pacto com o Demônio da loja.
Tal Pacto era celebrado em honra a quatro Demônios de grande envergadura de poder, cujos nomes não vêm ao caso.
Nesse Pacto, a pessoa recebia um Auxiliar Mágico para atendê-lo em tudo. Tudo mesmo.
Em troca, quando sorteada, essa pessoa teria a
'honra' de cometer suicídio, sacrificando-se em homenagem ao Demônio da Loja.
A cada dia 23 do mês de junho, os membros dessa Ordem, fundada na Alemanha após 1825, por pessoas influentes de Munique, reuníam-se.
Nessa noite era feito o sorteio do número do membro a ser eliminado desta vida. Esse deveria cometer suicídio.
Em seu lugar, um novo membro seria admitido.
No início, as FOGC faziam uso de rituais para sacrificar desafetos à distância.
Depois, sofisticaram-se, criando, com inspiração diabólica, uma espécie de máquina radiônica, batizada de 'Tepaphon', destinada a retirar o Prana, ou energia vital, de quem quer que tivesse uma foto ou mecha de cabelos sua, ou mesmo uma égide em cera, colocada em tal engenho.
Daí, com o Nazismo no poder, o FOGC pode desvelar sua verdadeira face:
um culto diabólico, que realizava sacrifícios humanos em massa.
"Não há nenhuma fantasia nisso, Frank? Você não teria ficado traumatizado com as desgraças que caíram sobre sua cabeça?" perguntei.
"Ora, ora, você também é psiquiatra? Não tenho traumas.
Tenho, isto sim, tristes recordações. Mas, infelizmente, isso tudo é verdade."
"Não tive a intenção de magoá-lo. Desculpe-me."
"Você não me magoou, Beto, não se preocupe."
Pegou novamente o telefone, discando o número memorizado naquela coisinha fantástica.
"Devem estar namorando ao telefone.
Ainda ocupado."
Eu sorrí, como que concordando.
"Olhe, Beto, tenho muito a lhe dizer.
Você teria condições de visitar-me em minha casa, neste sábado?"
"Claro, seria um grande prazer!"
"Eis meu endereço.
Como é distante do centro, mandei imprimir, no verso do cartão, um roteiro.
Creio que assim você chegará lá, fácil."
"Sim, está bem claro.
A que horas devo estar lá?"
"Quinze horas, está bem?"
"Claro, Frank. Três da tarde."
"Você tem compromisso depois, ou pode ficar até à noite?" Frank perguntou.
"Compromisso nenhum. Só me preocupo com a condução de volta."
"Não se preocupe. Mandarei levá-lo para casa. Tenho um motorista sempre de plantão nessas ocasiões."
Que chique, pensei. Eu, de carro, com motorista.
"Bem, sendo assim, pode me aguardar.
Fico muito contente por você me receber em seu lar. Quando quiser, apareça em casa, também."
"Irei. Depois que você me visitar, irei à sua casa.
Estou ansioso para provar a torta de bananas que sua mãe prepara."
"Sim, essa torta é bárbara! Mas como você sabe da torta?
Acho que eu nunca lhe falei dela..." Frank riu.
Entendí tudo, ele não parecia mais, como antes,
saber tudo sobre minha vida.
Ele SABIA mesmo tudo sobre minha vida.
Despedímo-nos e eu, curioso como sempre, resolví seguí-lo até o carro, para saber qual seu meio de transporte.
Quase fiquei apoplético ao ver seu motorista abrindo a porta daquele carro lindo, prateado, quatro portas.
Era um carro estrangeiro... Não sei que marca... Na traseira lía-se 'S 600'.
Espere um pouco, aquela estrela... MERCEDES- BENZ!
Puxa, uma Mercedes-Benz novinha! Frank estava bem mesmo, pensei.
Fui para casa a pé, como tinha vindo ao parque. Refletia sobre tudo o que ele me dissera.
Puxa, como é bom morar num país livre.
Quanto sofrimento esses 'salvadores da pátria' levaram a tantas pessoas no mundo.
Como eu era feliz, sem ter consciência disso. Podia voltar para casa, para meus pais.
Nunca precisara fugir de nada nem de ninguém. É. Este é mesmo um país maravilhoso. Hoje é.
O resto da semana foi bastante interessante e agitado.
Fui chamado a prestar serviço a outras duas empresas.
As coisas começavam a se engatar.
Minha vida parecia ter tomado o rumo certo.
Sábado.
Acordei antes das sete horas da manhã.
Pela primeira vez, em muitos anos, tive vontade de fazer alguns exercícios de alongamento.
Exercitei-me por menos de dez minutos, mas esse foi o primeiro passo de uma nova e, espero, feliz caminhada.
Fiz a barba, com um capricho que já esquecera até que existia.
Depois, tomei meu banho, com calma. Saí do banho revigorado.
Com a toalha, fofa, graças aos cuidados de mamãe e à química dos tais amaciantes de roupa.
Bela tecnologia, pensei.
O afago de uma toalha macia é algo que passa quase batido mas, quando nos detemos a observar todas as nuances da vida, até mesmo esses detalhes ínfimos são elementos capazes de alegrar os momentos de que a vida é feita.
Não sei por que, neste momento lembrei-me de uma música bonita, do final da década de 70.
Seu autor era o 'Carlinhos Borba Gato'; a música chamava-se, se não me engano, 'Sinto Muito'.
Dizia algo assim como 'a vida se resume em momentos'.
Isso mesmo.
'Eu sinto muito que você não possa ver que a vida se resume em momentos'.
Que coisa estranha.
Parecia fazer tanto tempo que nenhuma música povoava minha alma...
Senti-me como se nunca ouvira música alguma
antes.
Estava fascinado.
Pelas músicas só executadas dentro de minha mente. Não era só isso.
Eu estava, pela primeira vez, fascinado com a vida. Saí do banheiro, indo para o quarto.
Lá, procurei um 'walkman' jogado em algum canto. Deveria estar no armário.
Não, não estava. Numa sacola!
Sim, deveria estar numa sacola qualquer.
Achei-o na quarta sacola, entre uma dúzia delas amontoada num canto do quarto.
Por um instante o terror invadiu meu ser:
estaria meu esquecido 'walkman' municiado com pilhas?
Teriam essas pilhas vazado?
Estaria o pequenino aparelho se vingando de mim, numa desforra por ter ficado esquecido tantos anos?
Qual nada. Nenhuma pilha. Ainda bem, pensei.
Bem, agora era hora de achar alguma pilha velha e...
Não, nada de pilhas velhas.
Quando saísse, compraria pilhas novas.
Meu pequenino toca-fitas merecia essa deferência. Ao menos essa.
Noutra sacola encontrei fitas K-7. Muitas fitas. Todas gravadas.
Puxa, todas as minhas fitas!
Até a coleção de fitas com todas as gravações de Raul Seixas, meu maior ídolo.
Havia alguns anos, um amigo comum nos apresentara.
Eu já era fã do Raul Seixas mas, conhecendo-o, fiquei cativado pela figura humana que era.
Quanta falta faz esse fabuloso artista para seus milhões de fãs.
Eu havia ficado tão contente em encontrar essa coleção de fitas que, por um momento, a abstração tomou conta de minha mente.
Recordei as poucas vezes em que estive com Raul Seixas.
Meu amigo, J.R., me apresentara a ele alguns anos antes de sua morte.
Nesses dias, quando eu bebia e comia filosofia hermética, às vezes de qualidade duvidosa, tomei algumas 'aulas' valiosas com o Raul Seixas.
Raul havia experimentado de tudo um pouco na vida.
Disse-me ele que, em termos de Magia, havia passado por muita coisa.
Magia Thelêmica, Magia Enoquiana, Goécia, entre tantas outras coisas.
Me lembro de ele ter me mostrado seu 'livro de cabeceira', que o acompanhou até o fim da vida.
Raul dissera ter recebido esse livro de presente de J.R..
A capa do livro tinha duas serpentes entrelaçadas, uma negra e uma vermelha.
Era... 'Iniciacion al Hermetismo'!
Puxa, era o livro de Franz Bardon! Até isso! Como é que eu não havia visto a 'Luz' antes?
Só agora me dei conta de que muitas das coisas que eu lera no livro de Bardon, e até algumas que Frank me dissera, eu já havia ouvido da boca de Raul Seixas.
Lembrei-me da ocasião em que J.R. convidou-me para almoçar com Raul Seixas e seu parceiro e amigo
Marcelo Nova.
J.R. pediu que o encontrasse na porta de um restaurante chique, do qual não recordo o nome.
Num restaurante chique daqueles? Mas como poderia eu pagar minha refeição num estabelecimento que se impunha como lugar para 'ricos e famosos'?
J.R. disse que eu não me preocupasse. Seríamos todos seus convidados.
Acreditei, embora um pouco temeroso com a possibilidade de ter de pagar minha parte na conta...
Encontramo-nos, ao meio-dia e meia, na porta daquele imponente estabelecimento.
Fiquei muito feliz por reencontrar Raul Seixas.
Nesse dia ele estava particularmente bem-humorado. Foi nesse dia que conhecí Marcelo Nova.
Nunca tinha sido um grande admirador do trabalho de 'Marceleza', como Raul Seixas chamava seu amigo.
Na realidade, pouco conhecia de seu trabalho.
Parece que os disk-jóqueis ignoravam suas composições.
Fiquei impressionado com a personalidade de Marcelo.
Com sua lucidez, com a clareza de seus pensamentos.
Marcelo não bebe, não usa drogas, mora com a mãe, a esposa e a prole.
Mas que roqueiro diferente, pensei. Entramos no tal restaurante.
É, esses lugares chiques são demais!
Mal entramos, e fomos encaminhados até a mesa reservada, aonde sentamo-nos.
Nem bem sentamos, uma senhora muito bem vestida, cheia de jóias, acompanhada por um senhor também
elegantemente trajado, vinha ao nosso encontro.
"Raul Seixas! É você mesmo? Sou sua maior fã! Que prazer em conhecê-lo!" disse essa jovem senhora, segurando a mão de Raul Seixas como uma criança que encontra Papai Noel pela primeira vez.
"Meu prazer!" disse-lhe Raulzito sorrindo. Raulzito, era assim que ele gostava de ser chamado.
Mal a senhora saiu, veio uma legião de garçons, todos desejando apertar a mão daquele ídolo popular.
Após a legião de fãs nos ter deixado, veio o mâítre.
"Bom dia, senhores" disse-ele, estendendo os cardápios para cada um de nós.
Puxa, nunca vi um mâítre tratar alguém dessa forma. Classe, pensei. Sem gosma.
Eu nem sabia o que escolher, pois não havia frequentado muitos restaurantes em minha vida.
J.R., percebendo minha indecisão, perguntou-me se poderia sugerir minha refeição.
Logicamente aceitei.
Veio couvert, salada, um presunto de carne bovina que não me recordo o nome, um outro tipo de embutido importado, coisas fantásticas.
Depois me trouxeram umas coisinhas engraçadas, cheias de perninhas.
Engraçadas e esquisitas.
"O que é isso?" indaguei ao mâítre.
"São cabecinhas de lulas pequeninas, fritas à doré.
Como se faz no Mediterrâneo."
"Aonde?" perguntei curioso.
"Na região do Mar Mediterrâneo. Na Espanha se come muito desse prato. O Sr. Paulo Coelho, o escritor, provou-as aqui e disse serem melhores até do que as que comera na Espanha. Para nós isso foi um grande elogio."
"O Paulo Coelho esteve aqui?" indaguei.
"Eu o trouxe duas vezes", disse J.R.
"E que tal ele?" perguntei.
"Dom Paulete?" respondeu Raul, "ele é ótimo, você precisa conhecê-lo. Foi ele quem me apresentou o J.R. O Paulo é um ótimo sujeito. Um grande intelectual" completou.
"Mas vocês continuam amigos?" indaguei.
"Claro! Uma amizade como a nossa, tão forte, nada pode mudar. Nem Deus nem o Diabo podem destruir. Nem a morte, nem o tempo podem apagá-la."
Nesse momento chegou a 'entrada' do Marcelo Nova, única que faltava.
Começamos a comer.
Essas lulas fritas, apesar de esquisitas, são muito saborosas.
Mal acabara de engolir o último pedaço do derradeiro molusco em minha frente, chegou o prato principal.
E que prato!
Era um 'filé de linguado na laranja e mel'.
O tal linguado fora o peixe mais saboroso que já provara, acompanhado por um creme e um purê inesquecíveis.
É, essa comida é mesmo o máximo, pensei.
A música ambiente, as pessoas elegantes, os funcionários sorridentes, tudo parecia estar certo, tudo no lugar certo.
Agora eu me lembrava como já fora um otimista. E estava voltando a sê-lo.
Como diz a música, 'recordar é viver'.
E o que foi mesmo que escolhí de sobremesa?
Deixa ver se me lembro... Sorvete! Sorvete de melancia!
Isso mesmo, o melhor sorvete que jamais provara.
Se um dia eu tiver condições financeiras, vou comer ao menos uma vez por semana no tal restaurante. Quem sabe, num dia desses, conseguirei levar meus pais lá. Talvez antes do que eu imagine...
Deixe-me tentar lembrar daquele dia... O que foi que eu bebí? Acho que algum refrigerante... Não consigo me lembrar.
É, algumas coisas se apagam de nossa memória.
Olhei para o meu relógio e vi que não se passaram nem cinco minutos desde que comecei a divagar...
A Magia do tempo, essa água que corre por baixo da ponte, sem jamais voltar...
Como pude reviver algumas horas maravilhosas em tão poucos minutos?
Quão misteriosa é nossa mente!
Quem dera pudéssemos usá-la só para o bem, a satisfação, a alegria, a construção.
Quem sabe, num dia distante, n'outros tempo e lugar, possa meu Espírito imortal, habitante de um novo veículo terrestre, viver nessa realidade, hoje utopia.
Utopia... John Lennon criou a versão norte- americana da Sociedade Alternativa de Raul Seixas e Paulo Coelho, a 'New Utopia'.
Será que tem mais gente que, neste momento, pensa como eu?
Espero que sim.
Me deu saudades. Assim, sem mais nem menos. Do J.R., do Raul Seixas, do Marcelo Nova.
Saudades das 'lulinhas fritas'. Saudades da pessoa que um dia eu fui.
Saudades da pessoa que eu gostaria de ter sido.
Mas, quem sabe, o tempo deu, não uma parada, pois
ele não para, mas uma freiadinha, para que eu possa recuperar o rumo.
Bem, deixa eu me vestir, que o tempo passa e o frio está me cutucando as costelas.
Peguei a roupa toda, sem me esquecer do agasalho. 'Achei' no armário um casaco de couro, preto, dos
tempos de faculdade.
Ele ainda serviria? Só experimentando para ver... Puxa, serve como uma luva!
Vou com ele, disse para mim mesmo.
Pela primeira vez em muito tempo, eu estava me importando com o que vestir... Bom sinal, pensei.
Vestido, pronto, resolví passar um perfume esquecido no meu criado-mudo.
Bom perfume, esse Drakar Noir.
Tinha cheiro de sucesso, o mesmo cheiro de sucesso que tem aquele restaurante chique, do qual esquecí o nome.
O cheiro do sucesso que eu sempre desejara.
Mas, agora, estava decidido: não desejaria mais o sucesso, apenas. Iria perseguí-lo, com afinco e disposição.
"Bom dia, papai! Bom dia, mamãe" disse eu ao entrar na sala, aonde ambos assistiam a um telejornal matutino qualquer.
"Bom dia, filho!" disse meu pai.
"Bom dia, Betinho!" falou minha mãe. Eu sorrí.
Era a primeira vez que eu era chamado de 'Betinho'.
Era a primeira vez que eu desejava voltar a ser criança, voltar a aprender tudo de novo.
Voltar a estudar, voltar a crescer. Voltar a me apaixonar pelas meninas.
Voltar a desejar segurar nas mãos de alguém que me atraía não sei bem qual o motivo.
Voltar a querer assistir a filmes puros e inocentes, como aquele da 'Leoa Elza' ou a série 'Daktari'.
Voltar a sonhar com o seriado 'Além da Imaginação'. Sei que esses tempos não voltam mais.
Mas é bom sonhar, mesmo com o impossível.
Sentei-me à mesa, em silêncio, para não perturbar a televisão que dava brados furiosos, gritando contra algum buraco capaz de engolir uma jamanta, num canto qualquer da cidade.
Passando melado num pedaço de pão francês, lembrei-me de meus sonhos de criança.
Queria ser um grande caçador.
Um 'Grande Caçador Branco', como aquele 'Karamojo Bell', que matou mais de mil elefantes, com um fuzil Mauser calibre 7x57.
Ou como o maior caçador brasileiro, um médico carioca, o Dr. Alberto Machado.
Uma vez, lá pelos anos 70, li, numa revista 'Troféu', uma reportagem sobre esse homem.
Tinha fotos de suas armas, de seus troféus, as narrativas de caçadas a onças devoradoras de cães, de um tigre antropófago, tanta coisa emocionante!
Quando estive no Rio de Janeiro, até tentei descobrir
o telefone de tal pessoa. Não conseguí.
A revista 'Troféu' não fala mais de caça, assunto proibido no país.
De vez em, a revista 'Magnum' traz alguma reportagem do assunto, prova de determinação e coragem – coisa rara nestes dias.
Mas não importava não ter encontrado o 'Grande Caçador Branco'.
Nada importava, na verdade.
Seria caçador, isso era o que importava, e eu o decidira na pré-adolescência.
Enfrentaria as feras mais temidas do Planeta!
Alguém deve ter me ouvido... Acabei enfrentando feras perigosas, terríveis, que moravam dentro de mim.
Libertei os malditos Demônios, 'Choronzon', 'Legião', e não soube como controlá-los.
Quase fui derrotado. Destruído.
Mas esse Frank estava aqui para me salvar! E eu não me deixaria derrotar, dessa vez.
Sairia vencedor, ou morreria tentando.
Como disse Paulo Coelho no seu ótimo 'Diário de Um Mago', repetindo as palavras de um Apóstolo, 'O que importa é combater o Bom Combate'.
E isso eu estava decidido a fazer. Combateria o Bom Combate!
Derrotaria essas criaturas das Trevas. Frank e Bardon me ajudariam.
Nesse momento, regorgitei, vomitei, cuspi longe toda aquela porcaria de filosofia de loucos, fanáticos, dementes e tarados, que tanto mal causaram a mim e a tantas e tantas pessoas.
Quero encontrar a Luz!
"Quero encontrar a Luz!" exclamei.
"O que você quer, filho?" perguntou minha mãe, ainda absorta em buracos e crateras urbanas.
"Nada, mãe. Já achei. Era a manteiga" disse, disfarçando meu sorriso.
Lembrei-me, naquele momento, de outra passagem com Raul Seixas.
Ele me dizia:
"Adoro Metafísica, Bicho.
Tenho muitos ídolos nesse campo!"
"O que você acha do Aleister Crowley?
A filosofia dele é mesmo 'Magia Negra', ou isso é invenção?"
"A sua filosofia me agrada, me seduz. Como seduziu a tanta gente interessante, como Fernando Pessoa, Jimmy Page, David Bowie, muita gente.
Essa conversa de 'Magia Negra' é fruto da falta de esclarecimento sobre todo seu sistema mágico.
Ele foi um indivíduo dotado de uma inteligência privilegiada.
Mas, hoje, prefiro o Sistema de Magia de Franz Bardon.
Tenho certeza de que, nesse Sistema, encontrarei o que desejo, e que incessantemente venho buscando minha vida inteira."
"E o que você busca tanto assim?" perguntei curioso.
"Se não sabe, é por estar fora do caminho, desviado da rota. Como eu estive muitas vezes. Mas não desta vez."
"Tá, então estou desviado da rota. Mas me diga o que é. Por favor, eu preciso saber."
"Pergunte à minha mãe, Maria Eugênia, quem sabe ela poderá lhe dizer.
Eu mesmo só posso repetir meus versos da música 'Paranóia 2'."
"Sei. Entendí."
Parei por um momento, tentando me lembrar de tais versos.
"Mas você diz, nesses versos, que há alguma coisa que precisa encontrar, mas não sabe bem o que é", eu disse.
"Leia por entre as linhas, Beto."
"Como ler entre as linhas da 'Pedra do Gêneses', por exemplo?"
"Isso! Essa música, que fiz em parceria com o J.R., diz bem sobre minha busca dentro do Ocultismo. Ouça-a com atenção."
"É fruto, então, de alguma experiência própria sua?" indaguei, surpreso.
"Não só minha, como do J.R., e de muitas pessoas. A gente aprende muita besteira banhada de ouro.
A chave do maior poder, te dizem, mas, na verdade, não vale o chiclete que alguém mascou."
"Então, tudo que você estudou, aprendeu..." eu ia dizendo, quando Raul me interrompeu:
"Agora estou com o Franz Bardon! E isso é o que importa.
Mas não me entenda mal, todas as experiências que vivi foram importantes.
Como dizia Fernando Pessoa, 'tudo vale a pena, quando a alma não é pequena'."
"Entendo."
"Agora saia, que eu preciso dormir", disse-me Raul, sem a menor cerimônia.
Eu estava acompanhado de outros dois amigos seus, Sylvio Passos, presidente do seu 'fã-clube do coração', e de Toninho Buda.
Saímos pela única porta de seu apartamento, num apart-hotel da rua Frei Caneca, em São Paulo.
Quando estávamos quase chegando ao elevador, ele abriu a porta, e disse:
"Tome, Toninho (Buda). Isso é para você se proteger aqui em São Paulo. Esta cidade está ficando perigosa!" e fechou a porta, depois de entregar à Toninho
Buda um pacote, uma caixa embrulhada com papel de pão.
Toninho começou a abrir a caixa ainda no saguão do andar em que Raul morava, pela última vez.
A chuva estava forte e não tínhamos a menor pressa em sair.
Ao retirar o conteúdo da caixa, uma surpresa: era um daqueles coletes salva-vidas infláveis, do tipo que tem em todas as embarcações.
Toninho não entendeu direito a piada, quando viu Raul, sorrindo, por uma fresta da porta entreaberta.
"Deve ser por causa dos alagamentos por aqui, Toninho", eu disse.
"É, deve ser", disse ele sorrindo.
Sylvio Passos também rira, lembrando a vez que Raul havia lhe dado algum presente curioso, que não me recordo bem.
Recordações.
Raul morreu em agosto de 89.
Fui ao seu velório, eu e uma legião de fãs anônimos mas fiéis.
Desde então, nunca mais vi o Marcelo Nova pessoalmente. Só na TV, de vez em quando.
Nem o Sylvio Passos ou o Toninho Buda; muito menos o J.R.
Aonde estarão?
O que estarão fazendo de suas vidas?
Quando eu conseguir 'dar a volta por cima', vou procurar todas essas pessoas.
Estou, pela primeira vez, de bem com a vida. Terminei meu café-da-manhã repleto de recordações,
levantando-me em seguida.
Meus pais comentavam, horrorizados, mais uma
'baixaria' de algum político.
Eu estava tão desligado de tudo aquilo, tão contente em estar me encontrando, que dei um beijo em cada uma das faces de minha mãe e, depois, na testa de meu velho pai.
Ele não entendeu nada.
"Vou sair. Só voltarei bem tarde. Não se preocupem" avisei.
Saí pela porta que dá no jardim.
Como é possível, esse jardim que eu sempre ignorei está cada vez mais bonito, pensava.
Saí pelo portão, fechando-o com cuidado.
Iria até à floricultura do bairro para comprar algumas flores.
Dizem que é falta de educação ir pela primeira vez à casa de alguém, 'de mãos abanando'.
Vou comprar um vasinho de flores.
Um vasinho modesto, que estou com pouco dinheiro, mas um vasinho bem bonitinho, pensei.
"Bom dia. Quanto é aquele ali?" perguntei à moça que estava sozinha naquela floricultura esquecida pelo tempo.
"Está marcado", respondeu-me, sem muita atenção.
Lembrei-me daquele mâítre do tal restaurante chique... que diferença!
Será que o sucesso faz as pessoas serem mais atenciosas, competentes e educadas?
Não, acho que são as pessoas competentes, educadas e atenciosas que alcançam o sucesso e, mais importante, o mantém.
Vendo o preço, descobrí que era bem mais do que eu imaginava mas, mesmo assim, podia pagar.
"Tome" disse eu, entregando à funcionária alienada da vida, a quantia certa do valor do vasinho.
"Tem uma sacolinha, algo assim?" perguntei.
Ela puxou algo de um canto qualquer do balcão e entregou-me um saco de plástico preto, daqueles usados para por lixo.
Sua delicadeza, ao manipular tão fino produto, era a mesma de quem cata um rato morto pelo rabo, tentando não sentir o aroma exalado...
Virei-me de costas para essa jovem, que era tão sutil quanto um espremedor de laranjas, e fui embora sem dizer mais nenhuma palavra.
A plantinha era bonitinha, parecia uma violeta – eu não entendo nada de plantas – e era isso que importava.
Bem já era hora de rumar para a casa do Frank, pois ele morava longe.
Segundo meus cálculos, eu precisaria tomar cinco conduções para chegar até lá, além de andar um bom pedaço a pé.
Esse cara não mora, se esconde! pensei.
Caminhei cerca de dez minutos.
Cheguei, então, na avenida aonde diversos ônibus tem ponto.
Com o itinerário de meu destino em mãos, procurei me informar com algumas pessoas que, como eu, aguardavam um ônibus que as levassem rumo à zona norte.
Após algumas informações desencontradas, encontrei alguém que parecia realmente saber aonde ficava o bairro aonde Frank residia.
Ainda bem que eu, quando não sei, não me acanho em perguntar.
Eu pensara precisar tomar cinco conduções... Seriam 'apenas' três.
Menos mal.
Pacientemente aguardei o coletivo que me fora indicado.
Passaram-se quase quinze minutos, e ei-lo! O ônibus vinha praticamente vazio.
Que bom, pensei. Poderei escolher aonde sentar.
Entrei, paguei a passagem e fui logo buscar um banco próximo da porta de saída. Não queria me distrair e passar do ponto em que deveria descer.
Foram quase cinquenta minutos de viagem.
O ônibus partiu lotado e ia se esvaziando durante o percurso.
Puxa, pensei, se é assim num sábado, como será durante a semana?
Durante esse trajeto, fiquei só observando o caminho. Nunca estivera, em toda a minha vida, interessado em ver qualquer trajeto. Sentava no meu banco,
deixando o mundo girar e o tempo passar.
Mas, não agora.
Agora eu tinha fome de vida. Queria aproveitar cada minuto.
O meu ponto de descida havia chegado.
Sinalizei ao motorista, que parou no local determinado.
Descí, despedindo-me do motorista. Nunca fizera isso antes.
Que mal pode fazer a alguém, em ser educado? Acho que só faz bem.
Fiquei nesse segundo ponto, aguardando o coletivo que me conduziria por mais uma etapa de meu trajeto.
O local era ermo, quase abandonado.
Apesar de ser de dia, não me sentia confortável nesse local.
Estava torcendo para que o ônibus chegasse logo.
Já estava no ponto havia uns cinco minutos, quando vi, ao longe, um grupo de adolescentes.
Vinham na maior algazarra.
De longe, pareciam pequenos marginais. Fiquei frio. Estava amedrontado.
Tirei do bolso um tubo de spray contendo uma mistura líquida de propriedades lacrimogêneas, aquele tal de 'gás paralisante' – que, aliás, não é nem gás, nem paralisante...
Fiquei esperando o perigo passar.
Quanto mais perto eles chegavam, mais eu tinha medo.
Espere um pouco, era eu aquele garotinho que queria enfrentar feras antropófagas na África e na Índia? Era eu que queria sentir o bafo da morte na respiração ofegante de uma fera beligerante?
Coragem, homem! pensei.
Fosse o que fosse esse perigo, iria enfrentar.
Se esse grupo fosse me atacar, eu lutaria como pudesse.
Se fosse essa minha hora, se assim eu tivesse de morrer, tudo bem.
Afinal, eu sempre estivera pronto para entregar minha alma a quem quer que fosse.
Que diferença faria se fosse esse o momento e o lugar?
Nenhuma, pensei.
Estava voltando a ser aquele menino destemido. Que viessem, pois eu estava bem aqui.
Lembrei-me até do duelo que Paulo Coelho travou com um cão endemoninhado, relatado em seu livro 'Diário de Um Mago'.
Bem, endiabrados ou não, eu não seria presa fácil para bandido nenhum.
O grupinho de uns dez garotos me alcançou. Eu, fitando-os, sorrí.
Eles passaram, quase que me ignorando.
Seria minha coragem que os dissuadiu de me atacarem? Ou eu continuava com a maldita mania de perseguição?
Acho a segunda hipótese a mais viável... Passado o 'perigo', eis o tão esperado ônibus. Vazio, como o outro, quando o peguei.
Entrei e me acomodei no banco próximo da porta.
Diferente do primeiro trajeto, totalmente urbano, esse iria enveredar por entre lugares mais afastados.
A paisagem não era bonita, posto que mal cuidada.
Ainda assim, era muito diferente daquelas que eu me habituara a ver.
Comecei a me lembrar de fatos esquecidos há muito. Lembrei-me de quando adorava astrologia,
comprando tudo quanto me parecesse interessante no assunto.
Um dia, na Livraria Pensamento, encontrei um livro de capa modesta, mas conteúdo arrasador. Nunca vira conceitos tão científicos em um livro de astrologia.
Não me lembro do título do livro, está jogado em algum canto lá de casa.
Seu autor era 'Panisha'.
Li tal livro, mas não entendí quase nada.
No fim do livro, uma surpresa – o telefone do autor. Liguei para o tal 'Panisha'.
Ele mesmo atendeu o telefone. Pela voz, parecia ser um senhor.
Marquei um apontamento com ele para dali a dois dias.
Fui até sua residência.
Ele morava num bairro de classe média.
Era um pequeno prédio de apartamentos, sem elevador.
Toquei na campainha do apartamento, e ele desceu as escadas para abrir a porta.
Ele devia ter uns sessenta e poucos anos. Trajava terno escuro e usava gravata.
Entramos em seu apartamento.
Ele me convidou a sentar junto à sua mesa, na sala.
Começou, então, a me contar fatos que eu ignorava, a respeito da astrologia.
Recomendou-me que comprasse e estudasse seus outros livros, dez ou doze, não sei bem.
Foi o que fiz.
Astrologia para o hemisfério sul, retificação de hora, astrologia médica, horóscopo do Brasil, geomancia, nova astrologia, o tema era sempre astrologia e geomancia.
Como eram livros relativamente baratos, comprei-os ao longo de uns dois meses. Não pesaram muito em meu orçamento, na época.
Li tais livros, mas acho que não fui feito para a astrologia.
Voltei em sua casa mais umas quatro vezes, para ver se aprenderia astrologia.
Não aprendí, pois não estava realmente interessado.
Só queria saber de Magia, de manipular as 'forças imponderáveis'.
Numa das vezes que lá voltei, conhecí seu discípulo Fábio Di Domenico.
Conhecí, também, nessa ocasião, outro estudioso de astrologia e esoterismo, Ademar Salles Fernandes.
Panisha, homem muito culto e educado, polidamente me disse que eu deveria aguardar o programa para computadores baseado em 'sua' astrologia, pois esse Domenico estava desenvolvendo tal programa.
"Os cálculos não são seu forte, Beto", disse-me Panisha.
Realmente, ele tinha razão.
Perguntei-lhe qual sua profissão, pois acreditava que ele fosse engenheiro ou matemático, por gostar tanto de cálculos...
"Sou aposentado. Formei-me em odontologia, depois em medicina. Trabalhei, como médico e dentista, por quase quarenta anos.
Desde muito jovem estudo astronomia; depois, passei a me interessar pela astrologia e por sua irmã, a geomancia, única forma válida de astrologia horária episódica.
Agora sou apenas geomancista e astrólogo!", disse ele, com bom-humor.
"Panisha, já que sou um fracasso em matemática, que tal você fazer meu mapa astral?" perguntei-lhe.
Ele concordou.
Pediu-me que lhe dissesse a data de meu nascimento, a hora e tipo de parto, bem como minha cidade natal. Além disso, pediu-me que lhe informasse sobre cinco acontecimentos importantes em minha vida,
com as datas de tais ocorrências. Natureza e data. Que estranho, pensei.
"Mas para que isso?" indaguei.
"Para retificar a hora de seu nascimento", disse ele.
Com os dados em mãos, ele começou a trabalhar.
Fiquei lá com ele por umas quatro horas, e ele não parava de fazer cálculos e mais cálculos.
Comecei a ficar confuso.
Perguntei se demoraria muito a terminar meu mapa.
Afinal, queria meu mapa natal, além de previsões para dez anos.
"Uns cinco dias, trabalhando quatro a cinco horas por dia."
Inventei uma desculpa, indo embora, pedindo-lhe antes, porém, que me telefonasse avisando quando tal mapa estivesse terminado.
Passada uma semana, toca o telefone em casa. Era o Panisha. Mau mapa estava pronto.
Marcamos nosso encontro para o dia seguinte, após o almoço.
Ao meio-dia.
Após o almoço dele, bem entendido, que é às dez horas da manhã...
Eu não estava muito ansioso por mais um mapa astral.
Afinal, já tinha uns três, elaborados por astrólogos distintos.
Esse não deveria dizer nada de muito diferente.
Na verdade, eu havia pedido a ele que me elaborasse um mapa pelo 'seu' sistema, mais por educação que por interesse real.
No dia seguinte, cheguei em sua residência quando
faltavam dez minutos para o meio-dia. Gente, o homem já tinha almoçado! Recebeu-me, como sempre, muito bem.
Pegou um calhamaço de umas cem folhas nas mãos, e me entregou.
"O que é isso, Panisha?" indaguei curioso.
"Ora, seu mapa!" ele respondeu.
Um mapa astral com cerca de cem páginas... Que loucura!
É, deve ter alguma novidade...
Ele estava esperando aquele seu amigo e principal discípulo, o Domenico, para estudarem a execução daquele tal 'software'.
Entendí que não teríamos tempo de conversar naquele dia; então, após uns dez minutos, me despedí, prometendo ligar após ler todo o mapa.
Fui direto para casa, almocei com meus pais, e fui para o meu quarto.
Lá, tirei o mapa astral de dentro de um envelope que Panisha havia me dado.
Comecei a ler o tal mapa.
Muito embora eu não fosse um neófito em astrologia,
o grau técnico desse sistema me impressionou.
É, esse tal Panisha era mesmo competente e sério. Li o mapa todinho.
Algumas coisas bateram 'em cheio'. Outras resvalaram. Algumas me assustaram.
De uma, porém eu rí.
Dizia que eu me envolveria com Magia Negra, que buscaria, e encontraria, um Mau Anjo da Guarda. Que eu sofreria tormentos indizíveis, por causa de minha ousadia e mal-direcionamento.
E que, após alguns anos de sofrimento, seria ajudado
por um estranho, um homem idoso.
Naquele dia isso me soou como uma piada. Hoje, soa profético.
Lembro-me, também, que conversei, algumas vezes, com Panisha, sobre Magia.
Perguntei sua opinião sobre alguns autores que eu estudava.
Só agora lembro-me, como se fosse hoje!
Ele torceu o nariz para todos os nomes que eu citei. Virou as costas, entrando em seu escritório.
Voltou trazendo uma pilha de livros nas mãos.
"Estes autores são sérios, respeitáveis. Sinceramente, só confio neles.
Já li todos os que você me declinou, mas prefiro estes.
Don Néroman, Max Duvall, Maurice Béquart, Rudolph Steiner, e Franz Bardon...
Franz Bardon!
Eu já ouvira esse nome tantas vezes, e nunca me dera conta!
Só agora seu trabalho maravilhoso caíra em minhas mãos.
Quanto tempo seguí atrás de profetas bêbados e magos intoxicados, cujo lazer e prazer reside em passar informações propositalmente erradas, visando destruir todos que se aventurarem por seus caminhos tortuosos e pegajosos.
Hoje, o que sinto por aqueles ocultistas, que eu tanto admirava, é desprezo total.
Lembro-me que Panisha me mostrou quatro livros de Franz Bardon. Os mesmos quatro que Frank havia citado.
Puxa, quanto tempo eu perdi, pensei.
"Ponto final!" avisou o motorista.
Olhei ao redor, verificando que estava só no ônibus.
Meu relógio acusava terem se passado mais de noventa minutos.
Inacreditável, havia ficado em total abstração pelo trajeto todo!
Descí do ônibus, despedindo-me do motorista e do cobrador.
Eles se entreolharam, como quem estivesse ouvindo algum palavrão desconhecido.
Sem me importar muito, afastei-me do veículo. Estava, agora, junto ao último ponto de meu trajeto.
O local era tão ermo quanto o ponto anterior de minha viagem mas, agora, eu estava mais confiante.
Nada me amedrontava.
Esperei por mais de vinte minutos pelo meu ônibus. No local não havia viva alma.
O ônibus estava chegando. Fiz sinal e ele parou.
Entrei, paguei a passagem, verificando que haviam apenas dois outros passageiros.
Sentei-me num banco próximo da porta, pois o primeiro após a mesma já estava ocupado.
Meu ponto final nessa viagem estava a cerca de trinta minutos de distância.
Esse caminho estava incrivelmente esburacado e o veículo pulava mais do que um cabrito montês.
Os trinta minutos demoraram muito a passar. O motorista alertou-nos que era o ponto final.
Descí do coletivo, preocupado com o estado de minha plantinha, após tantos solavancos, e até me esquecí de despedir-me do motorista.
Dane-se ele, pensei.
Tirei do bolso da jaqueta o mapinha que Frank me dera.
Lá estava eu, no ponto final do ônibus.
Segundo o mapa, eu teria de caminhar mais cerca de mil e quinhentos metros.
É, Frank mora longe mesmo.
Sem outro remédio, peguei o caminho indicado, e rumei para sua casa.
Era uma alameda arborizada, muito bonita e bem cuidada.
Apesar de ser recoberta de cascalho, não era desagradável de se andar nela.
Na verdade, era bem menos quente que caminhar no asfalto.
Olhei no relógio, verificando ser ainda 14:30 hs.
Como havia marcado com Frank que estaria em sua residência às 15:00 hs., resolví ir, caminhando lentamente, pela arborizada alameda.
Nesse caminho, só árvores, moitas, plantas. Nada de casa, gente, nada. Local deserto mesmo.
Caminhei até encontrar um portão de ferro alto, chapeado, ladeado por cercas-vivas de uma densidade e altura como eu nunca vira antes.
Deve ser aqui, pensei. Parece uma fortaleza.
Ao lado do portão, encaixado numa estrutura de ferro, havia um porteiro-eletrônico.
Mal eu encostei o dedo na campainha, uma voz pergunto-me, vinda do outro lado do alto-falante, quem era e a quem procurava.
"Sou o Beto. Tenho entrevista mascada às três horas com o Dr. Frank."
"Aguarde um instante, por favor."
Fiquei esperando por cerca de um minuto pelo retorno da pessoa.
Deve ser o guarda, pensei.
Olhei para cima, e percebí que estava sendo observado por uma câmera de circuito fechado de televisão.
Tal câmera estava fincada no alto de um postinho, dentro de uma caixa de proteção.
"Pode entrar, doutor. É só empurrar o portão" disse a voz do outro lado.
Foi o que fiz.
Como seria a casa desse homem misterioso? Eu estava, realmente, muito curioso.
"Boa tarde, doutor. Seja bem vindo."
"Boa tarde", respondí.
"Sou Herbert, secretário do doutor Frank.
Ele está lhe aguardando no gazebo central do jardim. Queira me acompanhar.
O senhor quer que eu carregue seu vaso?" perguntou-me Herbert.
"Não, muito obrigado. O senhor é muito atencioso."
"Não faço mais do que minha obrigação, doutor."
Herbert virou-se de costas para mim e começou a caminhar na minha frente.
Eu o seguí.
O portão atrás de mim havia se fechado, e eu nem mesmo notara, absorto que fiquei pela recepção que me foi dada.
Não estou acostumado a receber tal tipo de tratamento.
Esse doutor Frank sabia viver, sim senhor.
O portão de ferro maciço, sem frestas, escondia uma paisagem mágica.
Do lado de dentro desse portão – que deveria ter, no mínimo, dois metros e meio de altura e era da largura de um caminhão – a impressão de se estar num outro mundo era nítida.
Sabia que havia alguma guarita, mas não conseguia vê-la.
Passando pelo portão, entrava-se numa alameda de ciprestes, com inúmeras peças de topiária, aquelas esculturas feitas moldando-se o crescimento e podando- se tais plantas.
Já havia visto isso em fotos e filmes, mas nunca pessoalmente.
É, realmente, impressionante.
Caminhamos por essa alameda, larga e gramada, por uns trinta e poucos metros, calculo.
Essa alameda termina numa estrutura compacta de ciprestes e outros arbustos que desconheço.
Ao chegar nessa massa vegetal compacta, tivemos de nos desviar, contornando essa peça estranha de paisagismo.
Depois desse pequeno monte, demos no jardim própriamente dito.
Era uma paisagem bucólica, evocando dias de outrora.
Esse local me dava a nítida impressão de que o tempo havia parado.
Imensas árvores, moitas medianas, folhagens pequeninas, flores dos mais diversos tipos, nas mais variadas cores.
Não sei se pela grande quantidade de plantas, ou se pela localização privilegiada do imóvel, o clima era ameno, com uma brisa suave, sem as características da atmosfera que reinava do lado de fora do portão.
Caminhamos numa trilha de pedras largas e irregulares, respeitando os canteiros das mais variadas espécies de plantas ornamentais.
Andamos por uns bons metros, rumo à uma formação de árvores imponentes, que encobriam a visão para além delas.
Ao alcançarmos essa formação impressionante, passamos por entre dois troncos que se curvavam, um em direção ao outro, formando uma passagem natural de mais de dois metros de altura, com uma largura de
quase um metro e meio, acredito.
Será que a natureza, sozinha, esculpiu tal obra? Que maravilha, pensei.
Passando por entre aqueles troncos, foi como penetrar por uma porta que levava a outras dimensões.
Lembrei-me, por um instante, da estória de 'Alice no País das Maravilhas'.
Parecia-me ter atravessado algum 'espelho mágico'.
"O doutor Frank está logo ali.
O senhor deseja que eu o acompanhe até lá?" perguntou-me Herbert, que até então mantivera-se no mais completo silêncio.
"Não, Herbert. Eu sigo sozinho. Muito obrigado", respondí.
"Então, com licença, doutor", disse ele, tomando o rumo de volta pela passagem mágica.
"Seja bem vindo, Beto! Aproxime-se!" recepcionou- me Frank.
Ele parecia alegre.
Talvez tivesse comido uma lauta feijoada, com todos os pertences, regada com caipirinhas e chopes, pensei.
Afinal, ele estava muito à vontade.
Eu nunca vira Frank assim, tão descontraído.
Bem, pensei, um Mago pode 'entornar algumas', de vez em quando.
Caminhei uns quinze metros até um gazebo de estrutura em madeira, pintado de branco.
Frank estava sentado num banco rústico, de tronco, rodeado de várias pessoas.
Levantou-se e apertou minha mão, abraçando-me a seguir.
"Que bom vê-lo, Beto.
É com grande satisfação que o recebo em meu lar.
Vou apresentar-lhe minha família e alguns amigos queridos" disse Frank.
"Grande honra para mim ser recebido em sua casa, Frank" disse eu, em tom mais baixo do que desejaria tê-lo feito.
"Francis, este é meu amigo Beto! Beto, esta é Francis, minha esposa." Ela é médica, também.
Agora milita apenas na administração de nosso lar."
Foi assim que Frank me apresentou uma senhora esguia, com cerca de cinquenta anos de idade, cabelos negros, olhos amendoados, tez azeitonada e feições árabes.
"Muito prazer, doutora Francis" disse eu, rapidamente.
"Seja bem vindo, Beto.
Meu marido fala muito em você" disse a simpática esposa de Frank.
Todos se levantaram para me cumprimentar; Frank foi me apresentando, um a um, no sentido horário.
"Beto, este é meu filho mais velho, Arnaldo. Também é médico, mas terapeuta holístico.
Não quis seguir a especialidade do pai. Garoto sabido..."
"Muito prazer, doutor Arnaldo" disse eu.
"O prazer é meu, Beto.
Mas, se você for nos tratando a todos de senhores e doutores, é melhor eu ir vestir um smoking, para a reunião ficar bem formal!"
"Está bem, Arnaldo", eu disse.
"Esta é Cláudia, minha filha.
Formou-se em direito – foi sempre a primeira aluna da classe –, prestou concurso para juíza e passou em
primeiro lugar!"
"Ora, papai, assim você me encabula. Muito prazer, Beto.
Não ligue para a corujice do papai."
"Muito prazer, Cláudia."
Impressionante, a doutora Cláudia era como que uma cópia, mais jovem, de sua mãe, a doutora Francis.
Pareciam a mesma pessoa, com uns vinte anos de diferença, uma da outra.
"Beto, este é o melhor genro que alguém poderia desejar.
Jamil é o marido de Cláudia, e é juiz também.
Juiz competente e respeitado, diga-se de passagem."
"Muito prazer, Jamil."
"O prazer é todo meu."
"Este é o doutor Flávio, nosso grande amigo, colega de Arnaldo desde os tempos de colégio.
Flávio é um dos pioneiros, no Brasil, a utilizar "Fotos Kirlian" como auxiliar no diagnóstico parapsicológico.
É um grande e promissor médico, terapeuta holístico como meu filho", disse Frank, apresentando-me a esse jovem de porte atlético e bem trajado.
"Muito prazer, Flávio."
"Muito prazer, Beto.
O Frank fala muito em você."
"Este é meu filho José Francisco, farmacêutico."
"Muito prazer, José Francisco."
"Muito prazer, Beto."
"Esta é Virgínia, minha filha caçula. Solteira.
Está estudando direito, e pretende ser juíza, também."
"Muito prazer, Virgínia."
"O prazer é meu, Beto.
Já o conheço muito de nome. Seja sempre bem vindo."
"Esta é Marcia, esposa de meu filho Arnaldo.
Ela também é médica, especializada em oxigenoterapia.
Aprendeu muita coisa com o doutor Flávio, um dos maiores especialistas no assunto."
"Muito prazer."
"O prazer é meu, Beto."
"Estes são os filhos do doutor Flávio, Flavinho e Marquinhos."
"Oi!", disse eu aos dois bonitos garotinhos.
"Oi!", responderam em uníssono.
"Atrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher!", falou o Frank.
"Concordo", disse Arnaldo.
"Isso eu digo para o Jamil. E falo com conhecimento de causa, por minha convivência com Francis."
"Robertinho, Myriam, venham cá!", chamou Frank.
"Pronto, vovô", respondeu uma linda menininha, com cara de indiazinha.
Seu cabelo, negro-azulado e escorrido, cortado, parecendo ter uma cuia por molde, reforçava ainda mais seu ar indígena.
"Quem é o amor do vovô?"
"Sou eu!", respondeu ela, sorrindo.
"Essa menininha maravilhosa é minha netinha, Myriam.
É filha de Arnaldo e Marcia. Ela não é linda?"
"Sim, é mesmo", respondí.
A menina, de uns três aninhos, era gorduchinha e
corada, transbordando saúde.
"A paixão dela é batucar no piano da vovó", falou a doutora Francis.
"Além de fazer bolinhos de barro, que tenta forçar os gatos a comer, não é princesa?" falou Frank.
Myriam riu.
"To aqui, vovô!", berrou um menino aparentando ter a mesma idade de Myriam.
Ele tinha os olhos grandes, o cabelo encaracolado, um ar de anjinho de desenho animado.
Era gordinho, também, mas menos que a Myriam.
Seu rosto, rosado, mostrava que era uma criança saudável.
"Roberto, este é Beto, amigo do vovô!"
"Oi, Beto! Você gosta de futebol?"
"Oi, Roberto. Gosto um pouco."
"Eu adoro!
Quando crescer, vou ser jogador de futebol!
Ou então serei Presidente da República!", disse-me o menino agitado que, dando um passo para o lado, esbarrou numa bandeja e derrubou-a, jogando ao chão uma jarra com água, alguns copos e um prato de salgadinhos.
"Xí... Desculpe!", disse o menino, encabulado.
"Tudo bem, amor. Você é mesmo o dinosaurinho da vó", disse a doutora Francis.
"O Roberto é irmão da Myriam. São irmãos gêmeos.
Mas são tão diferentes!
Parece até que, numa outra encarnação, foram marido e mulher, pois se dão tão bem em tudo, mas, às vezes, discutem e brigam por cada bobagem...", falou Frank, fascinado pelos netinhos.
"Sua família é muito agradável, Frank", eu disse antes que ele divagasse mais sobre os pimpolhos que derrubavam bandejas e faziam bolinhos de barro...
"Obrigado, Beto.
Amigos, preciso mostrar alguns livros ao Beto.
Fiquem à vontade, pois não demoraremos mais que uma hora."
"Se Frank vai conversar sobre livros, é melhor que esperemos sentados!", disse a doutora Francis.
Frank sorriu, puxando-me pelo braço rumo a uma trilha de pedras, como a anterior, que nos levaria a uma casinha, tipo de um estúdio, a uns poucos metros da reunião familiar.
Enquanto caminhávamos, indaguei de Frank:
"Quanto de terreno você tem aqui, Frank?"
"Vinte alqueires paulistas. Quase quinhentos mil metros quadrados."
"Que beleza! Um sítio pertinho da Capital!"
"Sim, mas você ainda não viu nada.
Implantei aqui um sofisticado sistema de auto- suficiência energética, hidroponia, além de muitas coisas inéditas no país.
Mas haverá tempo para você conhecer tudo.
Hoje, precisamos retomar nossa conversa sobre o Arcano IV.
Lá, no meu estúdio, teremos paz para conversar." Frank recobrara o ar solene de sempre.
Se havia mesmo bebido alguma coisa, o efeito já passara.
Não era mais o Frank médico, ou o Frank pai de família – era, novamente, o Frank Kaiser, o Mago.
"Frank, quase ia me esquecendo: trouxe este vasinho de flores para sua esposa.
Mas fiquei tão deslumbrado com seus jardins que, francamente, me esquecí."
"Então, amigo, volte lá e dê à ela. Ela vai apreciar muito!"
"Está bem, vou rapidinho e volto num instante!"
Fui pelo mesmo caminho de pedras pelo qual havia vindo.
Chegando até o gazebo, entrei, pois a doutora Francis estava lá dentro.
"Doutora Francis, quase me esquecí de dar-lhe este vasinho que comprei para a senhora.
Desculpe ser tão modesta a minha lembrança, mas é de coração", falei.
"Muito atencioso de sua parte, Beto.
Aqui neste lar, os presentes são medidos por um parâmetro para o qual não há cotação no mercado financeiro: a intenção de quem presenteia.
E, tenho plena certeza, o seu está na faixa superior da escala."
Sorrí, contente com a aceitação daquela plantinha.
"Dê-me licença, doutora Francis, que o doutor Frank me aguarda."
"Toda, Beto. Sinta-se em casa."
Ao virar-me para voltar à companhia de Frank, percebí que era observado atentamente por alguém.
Era Virgínia, a filha solteira de Frank. Sorrí para ela, por educação.
Ela, em troca, abriu um largo sorriso.
Puxa, faz tempo que uma mulher não me nota. 'Solteira...', tinha dito Frank.
Interessante, pensei.
Tomei, novamente, o caminho para ir de encontro a Frank, que a tudo observava, atentamente.
Frank caminhou até à frente de seu estúdio, aguardando-me e, em seguida, abriu a porta.
Era uma casinha em estilo colonial paulista.
Mais parecia uma casinha de bonecas crescidas...
"Entre, Beto.
Entre e fique à vontade."
"Com licença."
A casinha era maior por dentro do que aparentava ser quando vista por fora.
Frank apontou-me uma poltrona em estilo inglês, revestida de couro de porco tacheado.
Sentei-me naquela poltrona.
Frank sentou-se em outra poltrona, idêntica, em ângulo de quarenta e cinco graus com a minha.
Havia, entre as duas poltronas, aliás os únicos assentos naquela casinha, uma mesinha de tampo redondo.
Sobre essa mesinha repousavam, amontoados, alguns livros.
"Beto, tudo quanto você precisa aprender sobre Magia está escrito nestas páginas", disse Frank, pousando sua mão por sobre a pequena pilha de livros.
"Mas, aprender lendo livros, sem um Mestre, é muito difícil", respondí.
"Por isso eu estou aqui.
Para tornar sua tarefa menos árdua."
Parou de falar por alguns instantes, depois recomeçou:
"As obras sérias sobre Ocultismo são, em geral, literatura puramente técnica.
É necessário que alguém, conhecendo profundamente a teoria por detrás do Hermetismo, com bastante prática em Magia, elabore uma obra de estilo didático, porém ameno.
Será necessário que essa pessoa possa escrever um romance, embutindo nele as mais profundas verdades secretas.
O conhecimento secreto deverá ser tornado público, ao alcance de todos.
As mudanças previstas para o futuro exigem que nos apressemos na execução dessa tarefa."
Frank fez uma longa pausa, colocando as mãos espalmadas, uma de encontro à outra, elevando ambas ao nível do rosto.
Seus polegares tocavam, de leve, os lábios entreabertos.
Ele fitou-me, assim, longamente.
Ele tinha, naquele momento, um olhar enigmático e inquisidor.
Aquele olhar de baixo para cima, de quem sabe o que quer, e está decidido a conquistar.
Sentí um frio na barriga.
"Você quer dizer que eu..." Frank me interrompeu:
"Exatamente.
Você entendeu tudo, Beto.
Minha missão atual é a de iniciá-lo nos mais bem guardados segredos mágicos do Cosmos.
Devo entregar-lhe a chave dos maiores mistérios. Revelarei a você os Arcanos.
Do primeiro ao quinto Arcanos lhe serão desvelados. Você conhecerá Ísis sem véus."
— "E?"
"E, instruído, culto e sábio, sua missão será revelar esses mesmos segredos, na forma de uma série de romances, cada um completo em si, e dedicado a um Arcano.
Afinal, você gosta de escrever, além de escrever bem.
Você não é nenhum gênio literário, mas receberá inspiração de Inteligências Originais positivas, que assistirão seu trabalho.
Essa será sua missão.
Você, no passado, foi chamado. Faz pouco tempo, foi escolhido."
Lembrei-me das palavras de Cristo: 'Muitos serão os chamados, poucos serão os escolhidos'.
Fiquei em silêncio.
"Seu silêncio mostra sua aceitação incondicional de sua missão."
"Correto. Aceito-a, com orgulho. Sinto-me honrado."
"Então, Beto, vamos recomeçar de onde paramos. Temos muito por estudar.
O tempo passa, e não devemos desperdiçá-lo.
Você se recorda do que falávamos em nossa conversa anterior, sobre Hermetismo?" indagou Frank.
"Sim, é claro.
Suas palavras ressoam em minha mente como um sino singido por milhares de martelos!
Você me expunha a realidade do quarto Arcano.
Para ser mais exato, me dizia coisas muito profundas sobre Magia e Misticismo."
"Exato, amigo.
Contei-lhe sobre como os ensinamentos secretos eram passados aos Iniciados por seus Mestres.
Você se recorda bem do assunto?"
"Claro.
Se você quiser, pode recomeçar dali."
"Bem, durante o período de tempo em que a humanidade se desenvolveu, as ciências materiais isolaram-se por causa de seu próprio progresso.
Por necessidade, tornaram-se independentes as ciências materiais, das que tratavam de coisas sutis, pois as mais elevadas leis com respeito à energia, matéria e substância, não mais podiam ser percebidas pelos sentidos físicos.
Para a compreensão dessas leis superiores, um certo grau de maturidade seria necessário.
Por isso elas se separaram.
As que eram regidas por meios e técnicas puramente materiais das que exigiam técnicas mais delicadas.
Conseqüentemente, dois campos distintos do conhecimento desenvolveram-se.
Primeiramente, o conhecimento físico que poderia ser adquirido racionalmente pelo treinamento intelectual.
Depois, o conhecimento metafísico, que tratava de energias, substâncias e poderes mais sutis, que não podiam ser captados por meios intelectuais apenas.
Essa é a razão de o conhecimento metafísico ter recuado para uma posição nas sombras.
Finalmente, esse conhecimento foi, finalmente, destinado aos verdadeiros Adeptos, tornando-se sua legítima propriedade.
Um Hermetista que obtém sucesso em penetrar nos mistérios das leis da metafísica deve compreender, graças ao seu conhecimento, teórico e prático, das leis universais, a conexão lógica entre todas as ciências existentes.
Você está entendendo, Beto?"
"Para ser franco, a coisa toda ainda não está muito clara em minha mente.
Você poderia ser um pouquinho menos erudito? Até conhecer você, eu me julgava um intelectual..."
"Tentarei.
Para evitar confundir sua mente, não usarei o termo 'metafísica'.
Daqui por diante, me aterei à palavra 'Magia'; está bom para começar?"
"Melhorou."
"No passado, a Ciência Hermética era chamada, simplesmente, de Magia.
Do ponto de vista hermético, Magia é, nada mais, que 'metafísica elevada', que trabalha com poderes, matérias e substâncias de uma natureza mais tênue. Mas que têm conexões análogas com as ciências gerais dos dias atuais. E isso não importa a qual ramo do conhecimento elas pertençam."
Nesse momento, o interfone tocou.
Frank atendeu o aparelho, deixando-o operando pelo sistema de viva-voz.
"Diga", disse ele.
"Dr. Frank, tem uma chamada telefônica para o senhor.
Posso passar?" perguntou a voz do outro lado da linha.
"Não. Diga que falem com a Francis, pois estou ocupado."
"Pois não, senhor."
"Deve ser algum dos meus convidados para o jantar, confirmando sua presença.
Tenho muitos amigos, Beto, mas poucos sabem de
minha militância mágica.
Se você puder ficar para o jantar, apresentarei mais alguns amigos.
É importante que você se relacione com pessoas influentes e de alto nível.
Os amigos que virão, hoje, para o jantar, são muito queridos e especiais."
"Ficarei para o jantar, com grande prazer."
"Afinal, você é um advogado, e precisa ter contato com pessoas de destaque na sociedade, de outras formações profissionais, se quiser prosperar em todos os sentidos."
Advogado.
É mesmo, eu já havia até me esquecido de que era advogado!
Já estava formado há alguns anos e jamais exercera essa profissão.
Talvez fosse mesmo hora de enfrentar a realidade e mudar de vida.
"Beto, dê-me licença um momento, pois vou pegar um livro que quero que veja; está na estante lá dentro", disse Frank, apontando para uma porta fechada, no canto da saleta, embaixo de uma parte suspensa da estante de madeira de lei.
"É um livro de autoria de um grande amigo meu, Panisha."
Eis a ligação 'Panisha-Franz Bardon-Frank', pensei...
Frank voltou daquela biblioteca pequenina e oculta, trazendo nas mãos um livro.
"Beto, este livro do Panisha você não conhece, estou certo?"
O livro tinha o título de 'The New Astrology' – 'A Nova Astrologia', e havia sido editado na língua inglesa, como já indicava sua capa.
"Realmente não conheço, Frank.
Não sabia que um livro do Panisha havia sido traduzido para o inglês.
Tenho diversos livros de autoria dele, inclusive um sobre astrologia para o hemisfério sul, em castelhano."
"Esta obra, bastante abrangente, é o primeiro livro de um astrólogo brasileiro editado pela AFA – American Federation of Astrologers, dos Estados Unidos.
Seu trabalho não tem recebido a merecida acolhida por parte dos editores e da imprensa especializada.
Isso talvez se deva a seu sistema confrontar a chamada 'astrologia clássica'; o método de Panisha é muito interessante e deveria ser estudado com maior carinho pelos pesquisadores sérios."
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